Avatares hiper-realistas criados por inteligência artificial estão sendo usados no Brasil e no exterior para produzir vídeos em escala, atrair seguidores e gerar receita com anúncios, comissões de vendas e produtos digitais.
Os personagens aparecem em plataformas como TikTok, YouTube e Instagram como influenciadores, vendedores e supostos especialistas. Em alguns casos, divulgam tratamentos de saúde sem comprovação científica ou oferecem conselhos capazes de induzir usuários ao erro.
Segundo especialistas ouvidos na reportagem, a estratégia combina roteiros automatizados, tradução para vários idiomas e dezenas de avatares sintéticos. O objetivo é alcançar públicos específicos por meio dos algoritmos de recomendação e converter a atenção em dinheiro.
Mapeamentos da organização Ctrl Z identificaram conteúdos produzidos para diferentes nichos, incluindo história, entretenimento infantil, relacionamentos e saúde. As abordagens costumam explorar medo, curiosidade, esperança e senso de urgência para aumentar o alcance e o engajamento.
Parte dessa produção é classificada como “slop”, termo usado para descrever conteúdos genéricos e de baixa qualidade produzidos em massa com ferramentas de IA. No YouTube, vídeos desse tipo podem ser utilizados para tentar atingir requisitos de monetização, embora a plataforma proíba materiais repetitivos, sem originalidade ou que não ofereçam valor suficiente ao público.
O risco é considerado maior quando os avatares promovem falsas soluções médicas. De acordo com a Ctrl Z, há relatos de usuários que afirmam ter seguido recomendações apresentadas nos vídeos e até abandonado tratamentos convencionais.
Pesquisadores também afirmam que a evolução da tecnologia tornou mais difícil identificar conteúdos sintéticos. Falhas em mãos, vozes e cenários ainda podem aparecer, mas são menos perceptíveis em vídeos vistos rapidamente e em telas pequenas.
Especialistas defendem que as plataformas adotem sinalização obrigatória e destacada para conteúdos gerados por IA, além de mecanismos mais eficazes para verificar materiais monetizados. Para eles, não basta transferir ao usuário a responsabilidade de reconhecer uma simulação.
O YouTube informou que exige a divulgação de mídias sintéticas ou alteradas com aparência realista e pode aplicar rótulos de forma proativa. A empresa também afirmou que conteúdos que violem suas diretrizes, incluindo regras contra desinformação médica, podem ser removidos e levar à suspensão da monetização.
O TikTok declarou que também exige a identificação de conteúdos produzidos por IA e proíbe vídeos que enganem o público. A plataforma afirmou que contas que descumprirem as regras podem ser excluídas ou retiradas temporariamente do programa de recompensas. A Meta, responsável por Instagram e Facebook, não comentou.
Na avaliação da advogada Gisele Kauer, o uso de IA não afasta a responsabilidade de quem produz ou divulga conteúdo ilícito. Dependendo da conduta, podem ser aplicados crimes já previstos na legislação brasileira, como estelionato, falsidade ideológica e exercício ilegal da medicina.
Fonte: g1