O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), não participou da reunião convocada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta quinta-feira (5), no Palácio da Alvorada, para discutir os rumos da economia. Cotado para assumir o Ministério da Fazenda, o piauiense ficou fora do encontro que reuniu ministros, antigos integrantes da equipe econômica e conselheiros do presidente.
A ausência ganha relevância política porque ocorre após relatos de resistência à sua indicação dentro do próprio campo governista. Segundo a Folha de S.Paulo, colaboradores de Lula passaram a apresentar objeções à escolha, envolvendo tanto a saída do governo estadual quanto sua experiência na articulação política em Brasília.
Participaram do encontro o vice-presidente Geraldo Alckmin; o ministro da Fazenda, Dario Durigan; os ex-ministros Fernando Haddad e Guido Mantega; e o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante. Também estiveram presentes Miriam Belchior, Bruno Moretti, Esther Dweck, Luciano Coutinho, Laura Carvalho e Eduardo Moreira. A reunião não constava da agenda oficial.

Politicamente, seria razoável esperar a participação de um nome em estágio avançado de preparação para comandar a Fazenda em uma discussão desse alcance. A ausência de Fonteles enfraquece a leitura de que sua nomeação esteja encaminhada, especialmente quando outros possíveis protagonistas da equipe econômica estão à mesa.
Essa interpretação, contudo, tem um limite: o encontro não foi apresentado como uma reunião exclusiva para escolher ministros. Segundo relatos publicados pela Folha, trata-se do início de uma série de conversas, que deverá incluir outros economistas e empresários nas próximas semanas.
Assim, a combinação entre resistência interna e ausência no Alvorada permite considerar duas hipóteses: a eventual indicação ficou para uma etapa posterior ou perdeu espaço entre as alternativas examinadas por Lula. Os elementos disponíveis ainda não permitem determinar qual delas prevalecerá — nem excluir outras explicações para a composição do encontro.
O custo político de deixar o Piauí
Uma das objeções atribuídas a interlocutores do presidente envolve a necessidade de Fonteles renunciar ao governo estadual para assumir o ministério. Na avaliação desses colaboradores, o custo da decisão tornaria uma eventual demissão politicamente mais difícil. É nesse sentido que aparece a expressão ministro “indemissível”: um constrangimento político para o presidente, caso precisasse substituí-lo.
Outra ressalva relatada é a de que o governador ainda não teria sido “testado em Brasília”. A crítica questiona sua experiência no ambiente federal, onde o comando da economia exige negociação com Congresso, integrantes do governo e diferentes setores econômicos.
A reportagem também registra incômodo de auxiliares com informações sobre supostas reuniões de Fonteles com representantes do mercado financeiro antes de uma definição presidencial. O governador negou à Folha ter se reunido com empresários e afirmou que não discutiu cargos nem política econômica com Lula.
A negativa é relevante porque impede tratar como comprovada a versão de que o piauiense teria antecipado articulações próprias de um futuro ministro.
Durigan participa; Fonteles aguarda
Enquanto Fonteles permanece no campo das possibilidades, Durigan participa diretamente das discussões sobre medidas econômicas. Antes da reunião, o ministro afirmou que levaria propostas e diagnósticos ao presidente para orientar as próximas semanas. Auxiliares descreveram o encontro como uma fase de escuta, sem previsão de anúncio imediato de um pacote após a conversa.
A participação não assegura sua permanência no próximo mandato, assim como a presença de Alckmin não confirma uma escolha. Mas confere aos participantes uma oportunidade de influenciar o diagnóstico e as prioridades que orientarão a futura equipe.
Para Fonteles, o sinal político do dia é de cautela. Seu nome continua mencionado nas especulações, mas a reunião não oferece evidência de aproximação com a cadeira da Fazenda. Somada às objeções relatadas por aliados, a ausência reduz a sustentação da hipótese de um convite iminente. Isso indica perda de impulso na disputa, não uma decisão pública de Lula de descartá-lo.