Avatares hiper-realistas criados por inteligência artificial passaram a ser usados em redes sociais como TikTok, YouTube e Instagram para vender produtos, divulgar serviços e gerar receita com vídeos automatizados, segundo reportagem publicada em 24 de setembro de 2026.
Os personagens sintéticos acumulam seguidores e podem ser monetizados por meio de anúncios, comissões em marketplaces, venda de produtos digitais e negociação dos próprios perfis. Em alguns casos, os criadores utilizam o mesmo roteiro traduzido para diferentes idiomas e interpretado por vários avatares, ampliando o alcance das publicações.
O modelo também tem sido aplicado a conteúdos de saúde, entretenimento infantil, histórias apelativas e relacionamentos fictícios. Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que essas produções exploram medo, curiosidade e esperança para aumentar o engajamento, especialmente entre usuários que buscam respostas para problemas específicos.
O pesquisador Fernando Ferreira, do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), avalia que a automação passou a incluir voz, imagem e interações mais personalizadas, o que dificulta a identificação de campanhas e conteúdos artificiais pelos usuários.
Mapeamentos da organização Ctrl Z apontam que uma parte desse material é produzida em escala industrial e pode conter erros históricos, desinformação e alegações sem comprovação. A entidade também alerta para o uso de avatares que simulam especialistas e oferecem tratamentos de saúde sem evidência científica.
O risco é maior quando os conteúdos levam pessoas a abandonar tratamentos convencionais. Segundo Luã Cruz, diretor de litigância da Ctrl Z, há comentários de usuários que afirmam seguir orientações apresentadas por esses perfis sintéticos.
Para os especialistas, a evolução dos vídeos tornou insuficiente transferir ao público a responsabilidade de verificar sozinho se uma publicação é verdadeira. Sinais como movimentos artificiais, falhas de sincronização entre voz e boca e textos distorcidos ainda podem aparecer, mas se tornam menos perceptíveis em telas pequenas.
YouTube e TikTok informaram que exigem a identificação de conteúdos gerados ou alterados por inteligência artificial e podem remover vídeos, restringir a monetização ou suspender canais que violem suas regras. A Meta, responsável por Instagram e Facebook, não comentou a reportagem.
Na avaliação da advogada Gisele Kauer, o uso de inteligência artificial não elimina a responsabilidade de quem produz o conteúdo. Práticas como estelionato, fraude, exercício ilegal da medicina e falsidade ideológica podem ser analisadas conforme a conduta adotada e os danos causados.
Pesquisadores também apontam impactos sobre a percepção da realidade, com a criação de padrões estéticos inalcançáveis e relações afetivas simuladas. Para eles, a discussão deve envolver sinalização clara do uso de IA, fiscalização das plataformas e responsabilização de quem utiliza personagens sintéticos para induzir o público ao erro.
Fonte: g1