Avatares hiper-realistas criados por inteligência artificial estão sendo usados para produzir vídeos em escala e gerar receita em plataformas como TikTok, YouTube e Instagram, segundo reportagem publicada pelo g1 nesta quinta-feira (24). Os personagens virtuais atuam como influenciadores, vendedores e supostos especialistas, embora não existam como pessoas reais.
Os produtores lucram com monetização de vídeos, comissões por vendas, divulgação de produtos digitais e negociação de perfis que acumulam seguidores e engajamento. Roteiros podem ser traduzidos para diferentes idiomas e interpretados por dezenas de avatares, ampliando o alcance das publicações.
Levantamentos citados na reportagem apontam a presença desse tipo de conteúdo em áreas como história, entretenimento infantil, relacionamentos e saúde. Em alguns casos, os personagens divulgam tratamentos sem comprovação científica ou fazem recomendações que podem levar usuários a abandonar cuidados médicos convencionais.
Especialistas ouvidos pelo g1 afirmam que a estratégia explora emoções como medo, curiosidade e esperança para alcançar públicos específicos por meio dos algoritmos de recomendação. A produção em massa também é associada ao chamado “slop”, termo usado para descrever conteúdos gerados por IA com baixo valor informativo, erros factuais e forte apelo sensacionalista.
No YouTube, canais precisam cumprir requisitos de audiência para entrar no programa de parcerias, como mil inscritos e 4 mil horas de exibição pública em vídeos longos nos 12 meses anteriores. A plataforma informa que conteúdos sintéticos ou alterados de aparência realista devem ser identificados e que canais podem perder a monetização por violações recorrentes ou por produção repetitiva e sem valor original.
O avanço tecnológico tornou mais difícil reconhecer imagens e vídeos artificiais, especialmente em telas pequenas. Entre os indícios citados por pesquisadores estão falhas na sincronia entre voz e boca, textos deformados no cenário, aparência excessivamente artificial e promessas consideradas milagrosas.
Os especialistas defendem que as plataformas adotem avisos mais visíveis e mecanismos de moderação para conteúdos de IA que envolvam saúde, finanças ou campanhas políticas. Eles também criticam a dependência exclusiva da autodeclaração dos criadores para informar o uso de ferramentas generativas.
Do ponto de vista jurídico, a tecnologia não elimina a responsabilidade de quem usa esses perfis para enganar usuários ou obter vantagem indevida. Dependendo da conduta, podem ser analisados crimes já previstos na legislação brasileira, como estelionato, falsidade ideológica e exercício ilegal da medicina.
Além dos riscos financeiros e de desinformação, pesquisadores apontam efeitos sobre a percepção da realidade e a autoestima. Avatares com corpos e padrões estéticos inalcançáveis podem intensificar a comparação social, enquanto interações afetivas simuladas podem criar vínculos com personagens que não existem.
O TikTok informou que exige a identificação de conteúdos gerados por IA e proíbe publicações que induzam o público ao erro. O YouTube declarou que utiliza tecnologia e análise humana para identificar vídeos que deveriam ter sido rotulados e pode remover conteúdos ou suspender canais do programa de parcerias; a Meta, responsável por Instagram e Facebook, não comentou.
Fonte: g1