A morte do cantor Rick, da dupla Rick e Renner, confirmada nesta terça-feira (22) após um acidente com helicóptero em Santa Catarina, reacende o debate sobre a baixa presença de artistas negros no sertanejo brasileiro.
Rick estava entre os poucos nomes negros que alcançaram o estrelato no gênero, marcado por décadas de ampla presença nas rádios, na televisão e, mais recentemente, nas plataformas digitais. Segundo a reportagem original, a última vez em que um representante negro apareceu entre os dez primeiros colocados das rádios com uma música sertaneja foi em 1996, quando João Paulo e Daniel chegaram à terceira posição.
João Paulo, que morreu em 1997, também enfrentou barreiras raciais no início da carreira. De acordo com relatos reunidos pela reportagem, executivos chegaram a sugerir que Daniel trocasse de parceiro para formar uma dupla de cantores brancos, sob o argumento de que a formação teria maior apelo comercial.
Rick relatou episódios semelhantes ao longo da trajetória com Renner. Em entrevista ao jornalista André Piunti, o cantor contou que uma fã se recusou a tirar uma foto com ele por não gostar de pessoas negras. Renner, segundo o relato, decidiu não fazer a foto.
Pesquisadores ouvidos pela reportagem relacionam a baixa presença negra no sertanejo ao processo histórico de embranquecimento da música caipira. Luiz Antonio Guerra, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, afirma que influências negras foram afastadas da narrativa dominante do gênero a partir da modernização promovida por setores da intelectualidade paulista e pela indústria cultural.
Estudos acadêmicos também apontam que a música caipira tem raízes negras e que sua transformação em produto da indústria fonográfica contribuiu para consolidar uma estética mais branca. O processo envolveu não apenas a escolha de artistas, mas também capas de discos, aparições na televisão e critérios de contratação.
André Piunti atribui parte desse processo às decisões de gravadoras e executivos, que teriam barrado artistas negros durante a expansão comercial do sertanejo. A reportagem cita ainda relatos de mudanças na apresentação visual de artistas consagrados, como Tião Carreiro, para facilitar a aceitação de seus discos no mercado.
O debate também envolve o espaço reduzido para discussões raciais dentro do gênero. Especialistas avaliam que a consolidação de um artista negro com uma música de alcance nacional poderia ampliar a identificação de novos talentos e romper o ciclo de baixa representatividade.
Entre os nomes que buscam espaço estão Junior Marques, David Henrique e Diogo Henrique. A morte de Rick reduz ainda mais a presença de artistas negros no sertanejo de maior projeção nacional.
Fonte: g1