Recentemente, robôs autônomos falharam em episódios ocorridos nos Estados Unidos e na China, levantando questões sobre os limites da tecnologia. Em Wuhan, na China, táxis autônomos da Baidu pararam no meio da rua, prendendo passageiros. Em outra cidade chinesa, um robô atingiu o rosto de uma criança durante uma apresentação. Em Chicago, EUA, um robô de entregas destruiu um ponto de ônibus, gerando protestos dos moradores.
Esses incidentes impulsionaram abaixo-assinados e pressão política contra a expansão desses equipamentos em Chicago. Uma pesquisa indicou que mais de 83% dos moradores locais rejeitam o aumento do serviço, citando riscos à segurança, obstrução de calçadas e falhas recorrentes.
Thiago Boaventura, professor da USP, explicou que as falhas não indicam um descontrole das máquinas, mas sim as limitações técnicas atuais e a complexidade do ambiente urbano. Segundo ele, o mau funcionamento é resultado de uma combinação de fatores, incluindo sensores, interpretação do ambiente e tomada de decisão. O especialista, com formação em engenharia e doutorado em robótica, lidera pesquisas na área e coordena projetos com empresas.
Boaventura detalhou que o funcionamento dos robôs depende de sensores, algoritmos e sistemas de decisão que interpretam informações em tempo real. Ele citou o vidro como um desafio, pois os sensores podem não detectá-lo, levando o robô a interpretá-lo como um espaço livre. No caso de Chicago, o robô pode ter tomado uma decisão lógica com base nos dados disponíveis, sem detectar o vidro.
O professor ressaltou que, por trás de cada falha, há um componente humano. Os robôs operam com base em regras e previsões estabelecidas por engenheiros. Empresas tentam prever todos os cenários possíveis, mas o ambiente real apresenta situações inesperadas. Nesses casos, o robô tende a parar e pedir ajuda humana remota.
Boaventura comparou o estágio atual da robótica com o da aviação, que se tornou segura após décadas de aprendizado com falhas. Ele também observou que a intolerância ao erro de máquinas é maior do que a erros humanos, devido a uma expectativa de perfeição e ao desconhecimento sobre o funcionamento desses sistemas.
Em países desenvolvidos, o uso de robôs é impulsionado pela escassez de mão de obra e pelo envelhecimento da população. A automação preenche lacunas, em vez de substituir trabalhadores. No Brasil, a adoção enfrenta obstáculos como infraestrutura urbana precária e questões culturais e de segurança.
A tendência é de expansão do uso de robôs em diversas atividades, especialmente em tarefas perigosas, repetitivas ou insalubres. O professor acredita que a robótica passará por um processo de amadurecimento, similar ao da aviação, aprendendo com os erros para aprimorar os sistemas e garantir a convivência segura entre humanos e máquinas.