Em entrevista, o cientista político Sérgio Abranches afirmou que a direita brasileira tem a oportunidade de se desvincular do bolsonarismo e seguir uma via democrática após a eleição de 2026.
Para Abranches, o presidencialismo de coalizão enfrenta uma crise desde 2018. Ele avalia que o enfraquecimento dos partidos de ligação entre o presidente e o Congresso, somado ao aumento das emendas parlamentares, reduziu a capacidade do Executivo de coordenar sua base.
Na avaliação do entrevistado, o Congresso se tornou mais fisiológico e à direita, o que levará Luiz Inácio Lula da Silva a buscar apoio do Centrão e de parte da direita para governar. Segundo ele, esse arranjo pode limitar a aprovação de políticas progressistas.
Abranches também afirmou que uma aliança entre Executivo e Judiciário pode influenciar a discussão sobre as emendas parlamentares, atualmente judicializada. Ele reconheceu que a politização do Judiciário é um efeito da judicialização da política, mas considerou o processo inevitável.
Sobre a direita, o cientista político disse que declarações de Tarcísio de Freitas e Rogério Marinho podem indicar um início de afastamento do bolsonarismo. Para ele, esse distanciamento não precisa ser explícito e pode ocorrer gradualmente.
O entrevistado criticou a adoção do voto distrital, defendida por algumas lideranças partidárias como forma de conter parlamentares digitais. Segundo Abranches, o modelo reduziria a representação da maioria e reforçaria uma política mais localista.
Abranches avaliou ainda que os partidos precisarão se adaptar à mobilização digital, que, segundo ele, já influencia movimentos sociais e manifestações. Para o cientista político, a insatisfação social deve continuar em meio às transformações do trabalho e à expansão da precarização.
Na avaliação dele, os governos terão de criar formas de arrecadação e geração de renda compatíveis com a economia digital. Abranches afirmou que a democracia poderá evoluir para modelos digitais, mas também corre o risco de ser substituída por ditaduras digitais.
Fonte: O Globo