Uma nota divulgada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sobre a operação da Polícia Federal (PF) que teve como alvo o senador Ciro Nogueira (PP-PI) causou mal-estar entre aliados do presidente do PP. O episódio aumentou a cautela nos bastidores do Centrão em relação à aliança com o bolsonarismo para as eleições deste ano.
Parlamentares do PP e do União Brasil, que conversaram reservadamente, interpretaram a manifestação de Flávio Bolsonaro como uma tentativa de distanciamento político. A operação ocorreu em um momento delicado para Ciro Nogueira, um articulador da federação União-PP e aliado do grupo bolsonarista, tendo sido inclusive ministro da Casa Civil do governo de Jair Bolsonaro.
Em nota oficial, Flávio Bolsonaro declarou considerar "graves" as informações sobre o caso e defendeu apuração "com rigor e transparência". Ele também elogiou o ministro André Mendonça (STF), responsável por autorizar a operação.
A reação de Flávio desagradou aliados de Ciro, que esperavam uma demonstração mais clara de solidariedade. Um líder do União Brasil classificou a fala como um "abandono político" e disse que o filho do ex-presidente "largou total a mão do Ciro".
A investigação também preocupa a federação União-PP, que pode adotar uma postura mais reservada nas próximas semanas. Um aliado de Ciro lamentou a situação, afirmando que "em momentos como esse você vê quem é amigo ou não".
A investigação aponta um suposto esquema de vantagens indevidas entre Ciro Nogueira e o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Investigações mencionam pagamentos mensais de R$ 500 mil a uma "estrutura vinculada ao Senador", além de custeio de viagens, hospedagens e voos privados.
Um dos pontos centrais é uma emenda apresentada por Ciro para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Segundo a PF, a proposta teria sido elaborada dentro do Banco Master e enviada ao senador. Mensagens indicam que Vorcaro comemorou o texto, afirmando: "Saiu exatamente como mandei".
Apesar do desconforto, um interlocutor ligado à federação União-PP acredita que o episódio não causará um rompimento definitivo com o bolsonarismo. Segundo ele, a relação dependerá do cenário eleitoral de 2026, resumindo que "o Centrão é isso" e que a aproximação dependerá de quem estiver em vantagem nas pesquisas.
Esse mesmo interlocutor relativizou as críticas sobre o distanciamento de aliados, argumentando que em momentos de crise a tendência é a autopreservação. "Quem vai assumir nessas horas?", questionou.
Ciro Nogueira negou envolvimento com o caso e com Daniel Vorcaro, afirmando que "Vorcaro tem um CPF e eu tenho outro" e que renunciaria ao mandato se surgissem provas de irregularidade.
Integrantes do PP buscaram evitar o agravamento público da crise. O senador Dr. Hiran (PP-RR) contemporizou o episódio, defendendo que as investigações sigam seu curso. O próprio PP emitiu nota afirmando esperar que os fatos sejam "devidamente esclarecidos, com estrita observância ao amplo direito de defesa e ao devido processo legal", e manifestou "confiança nas instituições e na Justiça brasileira".
Parlamentares do Centrão admitem que o caso aumentou a cautela sobre os custos políticos da aproximação com o bolsonarismo em 2026. A reação do PL reforçou a percepção de que o grupo tende a se distanciar de aliados em momentos de desgaste.
Por outro lado, a base governista aposta que o episódio pode marcar um ponto de inflexão na relação entre o Centrão e o bolsonarismo, expondo fissuras na aliança para a próxima disputa presidencial.