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terça-feira, 20 de outubro de 2026

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Jornal Diário do Povo

INVESTIGAÇÃO

Mulheres trabalham em escala 7x0, denuncia pesquisadora

Pesquisadora denuncia que mulheres brasileiras trabalham em regime de 7x0, sem folgas ou descanso, devido à sobrecarga de tarefas domésticas e de cuidado. A desigualdade tem raízes históricas e econômicas.

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Mulheres trabalham em escala 7x0, denuncia pesquisadora

Enquanto a maioria dos trabalhadores aproveita o feriado de 1º de maio para descansar, milhões de mulheres brasileiras estão em uma jornada incessante de trabalho. Cuidando de crianças, idosos e do lar, elas operam em uma escala de 7 dias por semana, sem folgas, férias ou mesmo em momentos de doença. A constatação é da professora Cibele Henriques, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Dados do IBGE revelam que as mulheres dedicam quase dez horas a mais semanalmente às tarefas domésticas e de cuidado em comparação aos homens. Essa disparidade, segundo Henriques, tem raízes históricas e culturais, perpetuadas por um discurso que naturaliza o papel feminino no âmbito doméstico.

"O que eles chamam de amor, nós chamamos de trabalho não pago", afirma a pesquisadora, citando a filósofa Silvia Federici. Henriques argumenta que esse "amor materno mítico" justifica a exploração do trabalho feminino, essencial para a reprodução do capital humano e, consequentemente, para o sistema capitalista.

"Se tempo é dinheiro, o dinheiro das mulheres é expropriado delas", aponta Cibele Henriques. Ela explica que tanto mulheres que se dedicam exclusivamente ao lar quanto aquelas que conciliam trabalho remunerado e tarefas domésticas sofrem com essa sobrecarga psíquica, física e social. "O tempo da mulher nunca é usado só para ela", lamenta.

A pesquisadora ressalta que a situação é ainda mais grave para mulheres negras e periféricas, para quem o trabalho de cuidado é imposto como obrigação, sem possibilidade de delegá-lo. "A discussão sobre a escala 6x1 é muito importante, mas na verdade as mulheres vivem uma escala 7x0", compara.

Essa desigualdade começa na infância, com a divisão de brinquedos que reforça estereótipos de gênero. Discursos sociais que isentam os homens do cuidado e sobrecarregam as mulheres também contribuem para a perpetuação do problema, que pode levar à violência de gênero, já que muitas mulheres se veem presas em relações abusivas por dependência financeira e responsabilidade pelos filhos.

Henriques defende a criação de uma política de cuidados estruturada, com maior envolvimento do Estado, para desonerar as mulheres e garantir que o trabalho de cuidado seja reconhecido e compartilhado. A pesquisadora alerta que o envelhecimento da população brasileira tornará essa questão ainda mais urgente nos próximos anos.

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