O governo Luiz Inácio Lula da Silva deve aguardar a redução das tensões políticas provocadas pela ida do senador Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos antes de conceder o agrément ao indicado para a embaixada americana no Brasil, Daniel Perez. A avaliação de auxiliares é que o episódio não impede a aprovação, mas recomenda cautela.
Integrantes do Planalto defendem que Lula evite responder diretamente às declarações de Flávio Bolsonaro, do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do presidente argentino, Javier Milei. A expectativa é que a controvérsia perca força sem uma reação do governo.
A aprovação de Perez não é tratada como prioridade imediata. Embora integrantes do governo avaliem que o diplomata deverá receber autorização para assumir o posto, a decisão pode ocorrer somente após a análise dos próximos movimentos da Casa Branca. Não está descartada uma concessão ainda em 2026.
Segundo interlocutores do presidente, a presença de Flávio nos Estados Unidos não é, por si só, um impedimento. A situação poderia mudar caso Trump questionasse formalmente a legitimidade do governo brasileiro ou se o indicado à embaixada aderisse a acusações de fraude eleitoral.
Auxiliares de Lula avaliam que Trump, apesar de levantar suspeitas sobre as eleições brasileiras, não declarou que deixará de reconhecer o petista como presidente. O presidente americano também afirmou gostar de Lula e disse que não governa o Brasil, declarações interpretadas como sinal de preservação do diálogo.
O governo brasileiro também pretende acompanhar o resultado das eleições legislativas americanas para avaliar a capacidade de articulação de Trump no Congresso e possíveis efeitos sobre a política externa dos Estados Unidos. Uma eventual ampliação da presença democrata nas duas Casas é vista por interlocutores como oportunidade para fortalecer o diálogo com setores do Legislativo americano.
A estratégia inclui preservar a relação bilateral e evitar gestos interpretados como sinal de fragilidade. A orientação se aproxima da adotada durante o tarifaço do ano passado, quando o governo manteve negociações com Washington apesar das ameaças comerciais e das articulações de Eduardo Bolsonaro junto à administração Trump.
O episódio também aumentou a atenção do governo brasileiro sobre a atuação de Javier Milei na saída de Flávio do Brasil. O senador cruzou a fronteira com a Argentina na noite de terça-feira e embarcou em um avião particular para os Estados Unidos, com escala no Equador. Em carta divulgada após chegar a Miami, ele agradeceu nominalmente a Milei e Trump pelo apoio.
Interlocutores do governo avaliam que o caso amplia o desgaste nas relações com Buenos Aires, mas defendem cautela antes de uma reação diplomática. Para eles, Milei busca transformar as divergências com Lula em confronto político, e uma resposta direta poderia favorecer essa estratégia.
O desgaste também dificulta a retomada da representação diplomática brasileira em Buenos Aires no nível de embaixador. Não há prazo definido para uma eventual mudança.
Fonte: O Globo