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terça-feira, 27 de outubro de 2026

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Aos 81, Lula e o tempo de forjar um sucessor

Caetano Veloso e Emanuel Viana escreveram "Oração ao tempo". Na letra, o tempo é chamado de "Compositor de destinos". Na política, nada como entrar em acordo com o tempo. Na hora certa.

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Fábio Sérvio O ObservadorFábio SérvioVeja todas as publicações →
Lula e o desafio do tempo para formar novas lideranças
Crédito: Arte/IADP

Nesta terça-feira (27), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva completa 81 anos. O velho metalúrgico chega à data eleito para o quarto mandato presidencial, talvez sua última grande conquista nas urnas. Depois de tantas disputas, derrotas e retornos, venceu novamente. Mas a vitória traz uma pergunta que o PT conseguiu adiar por décadas: quem virá depois dele?

Há uma percepção conhecida: à medida que acumulamos mais passado do que imaginamos ter de futuro, o tempo parece acelerar. Uma criança sente um ano passar como uma eternidade. Um idoso vê os anos voarem. Na política, porém, o calendário tem uma crueldade adicional: enquanto o líder comemora a vitória, os aliados já começam a fazer as contas da sucessão.

Lula chegará ao fim do próximo mandato aos 85 anos. Não poderá disputar outra reeleição consecutiva e talvez queira, finalmente, se aposentar. Terá governado o Brasil por dezesseis anos. Tempo suficiente para marcar uma época. Resta saber se conseguirá preparar quem dará continuidade a ela.

Desde a fundação do PT, Lula ocupa o lugar de líder máximo. Outros cresceram ao seu redor, chegaram a postos importantes e até à Presidência da República. Nenhum, porém, reuniu a mesma autoridade sobre o partido e a mesma capacidade de conversar com o eleitorado. O PT produziu dirigentes, ministros e governadores. Produzir outro Lula sempre foi uma tarefa mais difícil.

Agora, o velho metalúrgico talvez comece a forjar seu sucessor. E um dos nomes que despontam é o do governador do Piauí, Rafael Fonteles.

Fernando Haddad foi, durante algum tempo, a principal carta na manga. Continua no baralho, mas já não parece ocupar sozinho o lugar de aposta para o futuro. A discussão sobre a sucessão ganhou novos personagens. Fonteles entrou nessa sala.

Reeleger Lula exigiu compreender uma forma de fazer política na qual o palanque divide espaço com os algoritmos, os vídeos curtos e a inteligência artificial. André Janones já havia conquistado espaço nesse ambiente. Rafael chegou à coordenação da comunicação da campanha no segundo turno, assumindo uma responsabilidade que o projetou para além das fronteiras do Piauí.

Na leitura política desses movimentos, Lula abriu ao piauiense uma porta para seu eleitorado. A proximidade com o presidente pode ser interpretada como oportunidade de apresentação nacional. Ainda seria precipitado enxergar ali uma escolha sucessória. Mas seria igualmente apressado ignorar o espaço que começou a ser aberto.

Rafael tem 41 anos; Lula completa 81. Quarenta anos separam as idades dos dois. O número tem uma simbologia: um carrega décadas de experiência; o outro pode ter décadas de trajetória pela frente. Fonteles larga de um lugar ao qual Lula precisou de uma vida para chegar: um partido consolidado, experiência de governo e acesso ao centro do poder.

Isso facilita a largada. A chegada continuará dependendo dele.

Se esse cenário ganhar corpo, veremos nos próximos anos Fonteles tentar, no PT nacional, um movimento de renovação semelhante ao que conduziu no Piauí. E provavelmente ouviremos o mesmo ranger de dentes dos petistas incomodados com a mudança de posição à mesa.

Sim, houve esse ranger por aqui. A votação superior a 70% deu ao governador força para enfrentar as resistências e ampliar sua autoridade política. As urnas não eliminam divergências internas, mas costumam baixar o volume de quem contesta o vencedor.

O desafio nacional, entretanto, tem outra dimensão. Uma coisa é reorganizar o partido num estado. Outra é disputar espaço numa estrutura em que cada liderança tem sua história, seu território e sua própria expectativa de futuro. Ninguém entrega voluntariamente a cadeira apenas porque chegou alguém mais jovem.

Além disso, juventude, por si só, não renova partido. É preciso renovar métodos, linguagem e quadros. Rafael terá de demonstrar capacidade de falar para além do eleitorado que já vota no PT, sem perder a interlocução com quem sustenta o partido há décadas.

A direita fez crescer Nikolas Ferreira e outras lideranças que aprenderam cedo a disputar atenção e converter presença digital em capital político. Fonteles, para se consolidar, precisará fazer nascer novas lideranças junto com ele. Talvez seja esse seu maior desafio.

Onde estão os novos petistas que formarão com Rafael as fileiras eleitorais dos próximos embates? Quem ocupará as câmaras municipais, as assembleias, o Congresso e as redes? Quem conversará com o jovem que conhece Lula como presidente, mas pouco sabe do metalúrgico que ajudou a fundar o partido?

Lula venceu mais uma eleição. O PT ganhou tempo. Ainda precisa decidir o que fará com ele.

O velho metalúrgico pode ajudar a forjar um sucessor. Rafael, se quiser ocupar esse lugar, terá de mostrar que também sabe formar quem caminhe ao seu lado.

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