A alta do petróleo, que levou o barril do tipo Brent a US$ 117 em 23 de outubro, aumenta a pressão sobre o próximo governo brasileiro para manter subsídios aos combustíveis e evitar uma elevação do diesel e da gasolina nas bombas.
O Brent acumula alta de cerca de 80% no ano, impulsionado pelo conflito no Oriente Médio. A subvenção ao diesel, prorrogada em setembro, deve ser estendida por pelo menos mais 30 dias, segundo a avaliação apresentada na reportagem.
A política de preços da Petrobras também está sob pressão. A presidente da estatal, Magda Chambriard, afirmou ao GLOBO que ninguém esperava chegar ao fim de outubro com o barril cotado a US$ 116.
Desde o início do conflito, o preço do diesel vendido pela Petrobras às distribuidoras permaneceu praticamente estável, enquanto a gasolina subiu menos que as cotações internacionais. O resultado foi influenciado por subsídios e desonerações tributárias adotados pelo governo.
A Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) estima que a defasagem do diesel da Petrobras em relação aos preços internacionais esteja próxima de 100%. Analistas do Goldman Sachs, porém, calculam que o preço realizado pela estatal, considerando os subsídios, esteja 21% abaixo da paridade internacional.
Para Marcos Praça, diretor de Análise da Zero Markets, o governo terá de escolher entre ampliar o subsídio, absorvendo parte do impacto externo, ou enfrentar uma alta dos combustíveis e o descontentamento da população.
Economistas da XP estimam que as subvenções ao diesel e à gasolina custem cerca de R$ 9 bilhões por mês. Segundo o relatório, a arrecadação maior obtida com o petróleo pode compensar parte desse gasto e, com o barril acima de US$ 105, gerar espaço fiscal para ampliar a política.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que a manutenção dos subsídios pode continuar caso o Brent permaneça em nível elevado e as receitas extraordinárias relacionadas ao petróleo sigam crescendo. Ele afirmou que a medida teria como objetivo reduzir o impacto da guerra sobre a inflação, sem tabelar ou congelar preços.
Atualmente, um entendimento permite flexibilização temporária da Lei de Responsabilidade Fiscal para compensar a renúncia de receita com a arrecadação adicional do petróleo. A regra, no entanto, vale apenas para 2026.
Durigan também afirmou que a continuidade do imposto de exportação sobre o petróleo cru deverá ser reavaliada conforme as condições de abastecimento. O tributo foi criado durante o conflito para incentivar o direcionamento da produção às refinarias brasileiras.
A valorização do petróleo beneficia as contas externas do Brasil e as ações da Petrobras. O superávit comercial do país com petróleo e derivados chegou a US$ 31,22 bilhões entre janeiro e setembro, alta de 40% em relação ao mesmo período de 2025.
Dados alfandegários chineses divulgados na semana passada apontam que o Brasil superou a Arábia Saudita e se tornou o segundo maior fornecedor de petróleo bruto para a China nos nove primeiros meses de 2026. O país asiático importou 44,29 milhões de toneladas do Brasil, ante 43,12 milhões de toneladas da Arábia Saudita.
As tensões no Oriente Médio continuam influenciando as expectativas dos mercados. Em 24 de outubro, Donald Trump disse à Fox News que se aproximava o momento de decidir entre um acordo com Teerã e uma ação mais contundente, enquanto o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, afirmou que um ataque não seria uma atitude racional.
Analistas avaliam que uma nova escalada pode elevar o risco de redução dos estoques de petróleo e derivados. O cenário também ocorre antes de eventos políticos e econômicos relevantes, como as eleições israelenses, as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos e a reunião do Federal Reserve.
Fonte: O Globo