O economista Manoel Pires, coordenador do Centro de Política Fiscal e Orçamento do FGV Ibre, avalia que a campanha presidencial opõe dois modelos de desenvolvimento: um baseado na ampliação do bem-estar social e outro voltado ao empreendedorismo e à iniciativa individual.
Segundo Pires, os discursos e as medidas sinalizadas pelos candidatos Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro indicam divergências sobre o papel do Estado, embora as campanhas também defendam propostas em comum, como a renegociação de dívidas.
Na avaliação do economista, a agenda de bem-estar social pressiona principalmente as despesas públicas. Ele cita como exemplos a proposta de tarifa zero no transporte coletivo, financiada por emendas parlamentares, e a defesa da política de valorização do salário mínimo.
Já a agenda de empreendedorismo teria impacto maior por meio de benefícios e renúncias fiscais. Entre as medidas mencionadas estão a retomada do Perse, programa de incentivo ao setor de eventos, o ViraPix e iniciativas voltadas a microempreendedores individuais e empresas do Simples.
Pires afirma que a disputa entre os modelos dificulta o ajuste das contas públicas, porque cada lado incorpora propostas do adversário para evitar que seja associado a cortes ou à redução da proteção social. Ele também questiona se a agenda de empreendedorismo produzirá resultados econômicos efetivos, após afirmar que o Brasil ficou para trás em PIB per capita na comparação com outros países emergentes.
Para o economista, as duas agendas avançam em um ambiente de restrição fiscal, no qual o governo encontra dificuldade crescente para gerar resultados primários suficientes para estabilizar e reduzir a dívida pública. Pires define esse processo como uma situação de fadiga fiscal.
Fonte: O Globo