O economista Manoel Pires, coordenador do Centro de Política Fiscal e Orçamento do FGV IBRE, avalia que a campanha presidencial de 2026 expõe uma disputa entre um modelo de Estado voltado ao bem-estar social e outro baseado no estímulo ao empreendedorismo.
Em entrevista ao jornal O Globo, Pires afirmou que as propostas associadas a Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro divergem sobre o papel do Estado no desenvolvimento do país. Segundo ele, enquanto o primeiro modelo prioriza a ampliação de serviços e da proteção social, o segundo enfatiza a iniciativa individual e a atividade empreendedora.
De acordo com o economista, as duas agendas pressionam o orçamento de formas diferentes. A política de bem-estar social atua principalmente pelo aumento das despesas, enquanto a agenda de empreendedorismo envolve benefícios e renúncias fiscais, como a possível retomada do Perse e a proposta do ViraPix.
Pires disse que a disputa dificulta o ajuste das contas públicas porque cada lado usa seus pontos de pressão para constranger o adversário. Ele citou, como exemplos, a cobrança para que Flávio Bolsonaro indique cortes no Estado de bem-estar social e iniciativas do governo Lula voltadas a microempreendedores individuais, renegociação de dívidas e ao Simples.
Na avaliação do economista, a agenda de bem-estar social contribuiu para a melhora dos indicadores sociais, mas não produziu o mesmo resultado no desempenho econômico. Ele afirmou que o PIB per capita brasileiro perdeu espaço em relação ao de outros países emergentes e questionou se o empreendedorismo terá capacidade de gerar resultados efetivos.
Para Pires, a combinação de compromissos das duas correntes ocorre em um ambiente de restrição fiscal e amplia a dificuldade de estabilizar e reduzir a dívida pública. O economista classificou esse processo como uma situação de fadiga fiscal, marcada pela dificuldade crescente de gerar resultados primários suficientes.
Fonte: O Globo