Um acampamento montado na Puerta del Sol, no centro de Madri, completa um mês de ocupação nesta sexta-feira (23) em defesa do direito à moradia na Espanha. A mobilização reúne barracas, refeitório, biblioteca, enfermaria e espaços para assembleias.
O protesto ocorre durante a campanha para as eleições gerais antecipadas, marcadas para 29 de novembro. Segundo os manifestantes, a crise habitacional deve permanecer no centro do debate político.
Marcos Navarro, de 22 anos, dorme na praça desde 27 de setembro, um dia após o início da ocupação. Ele atribui ao movimento a antecipação das eleições, convocadas pelo presidente do governo, Pedro Sánchez, depois que seu governo não conseguiu aprovar no Congresso um pacote de medidas para facilitar o acesso à moradia.
A onda de protestos começou após o despejo de Maricarmen Abascal, de 87 anos, do apartamento em Madri onde ela havia vivido por sete décadas. A mulher morreu pouco depois e é lembrada no acampamento com um altar de velas e flores.
As passagens entre as tendas receberam nomes como “A Raiva” e “Abaixo os Muros”. O local também abriga espaços dedicados à memória de Maricarmen e à situação em Gaza, além de uma loja de ferramentas para reparos.
Voluntários da área da saúde mantêm uma enfermaria com enfermeiros, médicos, psicólogos e assistentes sociais. Orlando Santander, técnico de saúde de 42 anos, afirma que o grupo presta principalmente primeiros socorros e que médicos da região oferecem atendimento em consultórios particulares para casos que não podem ser tratados no acampamento.
O governo de Sánchez descartou desocupar a praça. A ocupação, porém, é criticada pelo prefeito de Madri, José Luis Martínez-Almeida, e pela presidente da região, Isabel Díaz Ayuso, que tentou obter judicialmente a retirada dos manifestantes sem sucesso.
Ayuso também determinou o fechamento temporário da estação de metrô sob a praça, alegando falta de higiene. Grupos de extrema direita tentaram chegar ao acampamento, mas foram impedidos pela polícia.
A mobilização divide os comerciantes da região. Pedro Mora, dono de uma loja de artigos de couro, afirma ter perdido um terço do faturamento, enquanto a livraria feminista Mujeres permite que os ocupantes usem o banheiro, carreguem celulares, guardem pertences e descansem.
Os manifestantes dizem que o custo da moradia justifica a permanência na praça. O aluguel médio de um apartamento de 50 metros quadrados em Madri é estimado em cerca de 1.170 euros por mês, quase metade do salário bruto médio.
Navarro afirma que o grupo continuará na Puerta del Sol até ser retirado à força ou até que ocorram mudanças concretas nas políticas habitacionais. “Isto é só o começo. Vamos continuar crescendo cada vez mais, independentemente de quem governe”, disse.
Fonte: O Globo