Moradores e comerciantes de Cuba começaram a perfurar poços, construir cisternas e instalar caixas-d’água para enfrentar a falta de abastecimento, que afeta quase 29% dos 9,4 milhões de habitantes da ilha em meio à crise econômica.
Os apagões prolongados, associados à redução do combustível, comprometem o fornecimento porque as bombas dependem de eletricidade. A crise foi agravada desde janeiro pelo bloqueio petrolífero e por outras sanções impostas pelos Estados Unidos, além do embargo comercial à ilha em vigor desde 1962.
Em Matanzas, a cerca de 100 quilômetros a leste de Havana, o comerciante Kevin Martínez precisou fechar seu restaurante em algumas ocasiões por falta de água. Ele decidiu perfurar um poço para reduzir a dependência de caminhões-pipa, que chegavam a três por semana.
“Tivemos que fechar o estabelecimento em várias ocasiões porque não tínhamos água (...) e foi isso que nos levou ao ponto de ter que fazer o poço”, afirmou Martínez à AFP. Segundo ele, também foi necessário cozinhar com carvão e instalar painéis solares.
De acordo com Yunior González, funcionário da empresa nacional de Água e Saneamento, 2,7 milhões de pessoas em Havana não recebem água em casa. Ele atribui o problema a danos nos equipamentos de bombeamento, vazamentos, seca e falhas no fornecimento de energia.
González informou que mais de 870 bombas movidas a energia solar já foram instaladas, de um total previsto de 1.300. Os equipamentos devem beneficiar cerca de 500 mil pessoas e reduzir a dependência da rede elétrica nacional.
Em Havana Velha, o cozinheiro Maykel Aguilar, de 30 anos, busca água em uma tubulação ligada a uma nascente natural. Ele transporta um reservatório de 200 litros e baldes em um carrinho de mão até o segundo andar onde mora; a quantidade, segundo Aguilar, é suficiente apenas para lavar roupas, limpar a casa e cozinhar.
Moradores também recorrem aos chamados “ladrões de água”, bombas que retiram água da rede pública e a levam para as residências. A instalação de vários equipamentos em um mesmo bairro pode reduzir a pressão da rede e dificultar ainda mais o abastecimento de outras casas.
“Os apagões aqui são todos os dias e temos que ficar carregando água. É a luta cotidiana”, afirmou Yusimy Guerra, de 40 anos, que tem dois filhos.
Fonte: O Globo