O escritório de advocacia do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) emitiu notas fiscais que somam ao menos R$ 13,7 milhões entre janeiro de 2023 e julho de 2026. A informação foi revelada pelo UOL, a partir da análise de 62 documentos, e confirmada pelo jornal O Globo.
A banca funciona na casa onde Flávio mora, em Brasília, e é administrada à distância por Letícia Caetano dos Reis, que vive na periferia da capital. Segundo os documentos, os pagamentos foram direcionados a contas mantidas no Santander e no Banco de Brasília (BRB).
Uma das contas do Santander aparece, segundo a Polícia Federal, vinculada a Flávio e ao advogado Willer Tomaz. Os dois negam ter compartilhado uma conta bancária.
Entre os clientes identificados, o maior é o escritório Nilo & Almeida Advogados Associados, que tem como sócio Edvaldo Nilo de Almeida. Nomeado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para a Comissão de Ética Pública da Presidência em 2022, ele aparece relacionado a duas notas de R$ 2 milhões, emitidas em agosto e outubro de 2025.
As duas notas representam 29% do faturamento documentado da banca e descrevem os serviços como "assessoria jurídica", sem indicar processos ou detalhar os trabalhos realizados. Edvaldo Nilo afirmou ao UOL que os valores estão relacionados a um contrato firmado em abril de 2025 e negou irregularidades.
Levantamento do O Globo identificou ao menos 18 processos em que o escritório aparece como parte, sem considerar ações sob sigilo. Flávio assinou petições nas áreas criminal, civil e empresarial, inclusive em casos no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no Supremo Tribunal Federal (STF).
O Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil permite que parlamentares exerçam a advocacia, mas proíbe a atuação em processos que tenham a União ou órgãos públicos como parte. A restrição também alcança trabalhos para entidades ou empresas concessionárias de serviço público.
Em um processo no STJ, Flávio atua com Willer Tomaz na defesa de um dos sócios de uma fábrica de balas e pirulitos do Rio Grande do Norte. A disputa envolve uma tentativa de impedir a execução de R$ 159 milhões em contas e bens da empresa.
Também no STJ, o senador apresentou habeas corpus em abril de 2025 para pedir o encerramento de uma ação penal contra dois ex-sócios de Glaidson Acácio dos Santos, conhecido como Faraó dos Bitcoins. O pedido ainda não havia sido analisado, segundo a reportagem.
No STF, Flávio aparece como advogado na execução penal do pai, Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar após condenação no caso da trama golpista. O ministro Alexandre de Moraes suspendeu por 90 dias as visitas do senador depois que ele divulgou uma carta escrita pelo ex-presidente.
O senador também apresentou, em causa própria, uma queixa-crime contra o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad por calúnia, difamação e injúria. A ação, protocolada no início de 2025, está sob análise do ministro André Mendonça.
Registros da Receita Federal apontam Letícia como administradora do escritório. Ela é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, preso sob suspeita de participação em fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A defesa dele afirma que o cliente apenas exerce a profissão e não participou de ilícitos.
O escritório de Flávio não divulgou a lista de clientes, sob a justificativa de preservar o sigilo profissional. O senador também não se manifestou sobre a atuação de Letícia na administração da banca.
Fonte: O Globo