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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

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IA decifra carta napoleônica e recupera textos antigos

Inteligência artificial ajuda a decifrar carta militar de 1809, ler papiros de Herculano e analisar milhões de manuscritos históricos.

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O engenheiro Carter Church usou inteligência artificial para decifrar, em seis horas, uma carta militar codificada por ordem de Napoleão Bonaparte em 1809. O documento, dirigido a um dos generais do imperador francês e disponibilizado on-line por um arquivo universitário, traz informações sobre posições de tropas francesas e aliadas.

Church afirmou à AFP que utilizou um modelo de IA desenvolvido pela OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT. Segundo ele, sem a tecnologia, a análise poderia levar semanas, e o resultado dependeu da realização de testes sucessivos. “O que importa em tudo isso é a perseverança”, disse.

A tecnologia também vem sendo aplicada ao estudo dos papiros de Herculano, cidade romana soterrada pela erupção do Vesúvio, na Itália, no ano 79 d.C. Carbonizados pelo calor, os rolos são frágeis demais para serem abertos sem risco de destruição.

Pesquisadores combinam imagens de raios X com ferramentas de inteligência artificial para identificar os traços da escrita no interior dos rolos e reconstruir virtualmente os documentos. Em junho, uma equipe anunciou a leitura completa de um dos papiros preservados na Biblioteca Nacional de Nápoles, cujo conteúdo é um tratado estoico sobre ética, segundo Federica Nicolardi, professora associada de papirologia da Universidade de Nápoles.

Na França, o projeto Back in Time reúne historiadores, criptógrafos e especialistas em IA para transcrever e decifrar correspondências diplomáticas e militares codificadas. Muitos dos documentos usam combinações de triângulos, círculos e outros símbolos, e permanecem guardados em arquivos europeus.

Cécile Pierrot, criptógrafa do Instituto Nacional de Pesquisa em Ciências e Tecnologias Digitais da França (Inria) e responsável científica pelo projeto, afirmou que há períodos históricos pouco conhecidos por causa da dificuldade de acessar esses registros. A equipe pretende ampliar a capacidade dos modelos para analisar um volume maior de documentos.

O processamento de grandes acervos também permite investigar relações entre pessoas, lugares e acontecimentos. O projeto Midrash, por exemplo, transcreve 10 milhões de páginas de manuscritos hebraicos para criar uma base de dados pesquisável sobre a cultura judaica.

De acordo com Daniel Stökl Ben Ezra, diretor de estudos em ciências históricas da École Pratique des Hautes Études, em Paris, a ferramenta ajudou a relacionar fragmentos da guenizá do Cairo, conjunto de manuscritos judaicos hoje espalhados por instituições de diferentes países.

Outra iniciativa treinou um modelo para transcrever 14,6 mil páginas em latim de registros medievais da Catedral de Notre-Dame, em Paris. O sistema alcançou índices de reconhecimento de caracteres entre 88% e 94%, conforme o volume analisado, e permitiu recuperar informações sobre a rotina da instituição, suas obras e seus trabalhadores.

A historiadora Julie Claustre, responsável pelo projeto, afirmou que a transcrição manual exigiria décadas. Segundo ela, a automação não apenas reduz o tempo de pesquisa, mas também permite formular perguntas que seriam inviáveis diante da dimensão dos acervos.

Fonte: O Globo

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