A Polícia Federal prendeu seis pessoas nesta quinta-feira (15), no Rio de Janeiro, durante a 8ª fase da Operação Unha e Carne, que investiga um esquema de lavagem de dinheiro por meio de postos de combustíveis e suposta articulação entre agentes públicos e empresários. Entre os presos estão o deputado estadual Márcio Canella (União Brasil), ex-prefeito de Belford Roxo, e Marcus Amim, ex-secretário estadual de Polícia Civil.
Os agentes cumpriram seis mandados de prisão e 16 de busca e apreensão em municípios como Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, Niterói, São Gonçalo, Petrópolis, Angra dos Reis e Armação dos Búzios. As ordens foram determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo a PF, o grupo utilizava 96 postos de combustíveis e revendas associadas para movimentar recursos no Grande Rio e na Região dos Lagos. Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), citado na investigação, aponta movimentações superiores a R$ 7,6 bilhões entre 2020 e 2026.
A decisão também determinou o sequestro de bens e valores e a suspensão das atividades econômicas de 112 empresas investigadas. A apuração envolve suspeitas de organização criminosa armada, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis e formação de cartel.
De acordo com a investigação, Canella atuaria como articulador político do grupo e teria participado da indicação de Marcus Amim para a presidência do Detran-RJ e, posteriormente, para a Secretaria de Polícia Civil. Os investigadores também apontam que ele recebeu cerca de R$ 2,59 milhões em créditos da empresa Brumar Empreendimentos e mais de R$ 139 mil em espécie, valores cuja origem não teria sido esclarecida.
Canella foi indiciado por organização criminosa armada e lavagem de dinheiro. Em declaração divulgada no contexto da operação, afirmou que confia em Deus e na Justiça e que os fatos serão esclarecidos.
A PF afirma que Marcus Amim usava os cargos ocupados para oferecer proteção institucional às atividades do grupo. A investigação também o aponta como sócio oculto do posto Gasmix Alcântara, ao lado dos irmãos Christiano e Giovanni Gaspar Fernandes, e sustenta que uma empresa ligada a ele recebeu R$ 1,821 milhão da ADM Oil em um contrato de consultoria considerado fictício pelos investigadores.
Também foram presos os inspetores da Polícia Civil Pablo Jukiá Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo, José Carlos Alves de Souza Júnior, o Júnior, e os irmãos Christiano e Giovanni Gaspar Fernandes. Segundo a PF, Pablo seria o operador de fato de uma rede de postos e teria controle sobre cerca de 43 estabelecimentos formalmente registrados em nome de familiares e sócias.
A investigação atribui a Pablo suspeitas de organização criminosa armada, corrupção ativa, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis, formação de cartel e lavagem de dinheiro. Ele também é apontado como beneficiário de informações antecipadas sobre fiscalizações do Procon e da Secretaria Estadual de Defesa do Consumidor.
Júnior é apontado como responsável pela gestão e distribuição de recursos do grupo. Os investigadores afirmam que ele usava a mulher, Luisi Correa Pinho, para ocultar patrimônio e que teria ameaçado um ex-sócio que cobrava valores investidos.
Christiano, secretário municipal de Ordem Urbana de Belford Roxo, e Giovanni são apontados como sócios ocultos do posto Gasmix Alcântara. A PF também investiga operações da empresa Vitaserv, ligada à mulher de Giovanni, que teria emitido R$ 200 mil em notas fiscais de serviços de jardinagem consideradas fictícias pelos investigadores.
Outros seis investigados foram alvo de buscas, sem prisão preventiva. Entre eles estão Glaucio Paz da Silva, que sucedeu Amim na presidência do Detran-RJ; Dimitri Alecrim Gomes Gaudard Tavares; o escrivão da PF Fábio Henrique Ferreira dos Santos; Diogo Dantas Aguiar; Gabriel da Silva Bastos, conhecido como Calcinha; e Marcio Samary Machado, o Marcio Nit.
Fábio Henrique Ferreira dos Santos também foi afastado cautelarmente da função pública. Segundo a investigação, ele teria repassado a Pablo Russo uma informação sigilosa na véspera da 6ª fase da operação, usando mensagens configuradas para desaparecer após 24 horas.
A Operação Unha e Carne começou em dezembro de 2025 e apura conexões entre agentes públicos e grupos criminosos no estado. Na 6ª fase, realizada em julho, Canella já havia sido alvo de busca e acabou preso após a PF encontrar um fuzil no carro dele.
As defesas dos demais investigados não foram localizadas ou não haviam se manifestado até a publicação das informações que embasaram esta reportagem. Os citados são investigados, e as suspeitas ainda dependem de apuração e eventual decisão judicial.
Fonte: g1