A música sertaneja se tornou o gênero mais ouvido do Brasil ao incorporar elementos urbanos, românticos e pop ao longo de quase um século. Segundo o levantamento mais recente da Pró-Música Brasil citado pela BBC, a canção sertaneja “Eu Te Seguro”, do cantor Panda, lidera as reproduções em plataformas de streaming no país.
O sucesso atual está distante da música caipira registrada no início do século 20. A trajetória do gênero passou pela moda de viola, pelas narrativas sobre o campo, pela nostalgia dos migrantes, pelo romantismo popular e, mais recentemente, por influências do funk, do reggaeton e da música eletrônica.
Um dos marcos dessa história ocorreu em 1929, com a gravação de “Jorginho do Sertão”, composta por Cornélio Pires e interpretada pela dupla Mariano e Caçula. Como nenhuma gravadora demonstrou interesse pelo projeto, Pires financiou a produção e a prensagem dos discos.
O professor da Universidade de São Paulo e pesquisador Ivan Vilela divide a evolução do gênero em cinco grandes fases. Para ele, a primeira foi marcada pela consolidação da música caipira no mercado fonográfico e pela profissionalização dos artistas, enquanto a segunda ganhou força com a expansão do rádio e com duplas como Tonico & Tinoco.
A partir dos anos 1950, a expressão “música sertaneja” passou a prevalecer. O gênero incorporou ritmos como a guarânia paraguaia e a ranchera mexicana, além de elementos tradicionais brasileiros, enquanto as letras começaram a expressar com mais frequência a saudade do campo vivida por um público que se urbanizava.
Nos anos 1960, a música sertaneja absorveu influências da Jovem Guarda, com guitarras elétricas e maior presença de temas amorosos. A transformação se aprofundou nos anos 1980, quando o chamado sertanejo romântico ganhou espaço na indústria fonográfica com duplas como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano, João Paulo & Daniel e Rick & Renner.
Na virada do século, o sertanejo universitário aproximou o gênero do pop, do rock e do axé e passou a dialogar com o público jovem urbano. O período também abriu espaço para o feminejo, movimento associado à ascensão de artistas como Marília Mendonça, Maiara & Maraísa, Simone & Simaria, Naiara Azevedo, Paula Mattos e Paula Fernandes.
Outra vertente recente é o agronejo, que combina sertanejo, batidas eletrônicas, pop e funk e costuma abordar ostentação, relações amorosas passageiras e a imagem do agronegócio. Pesquisadores ouvidos pela reportagem divergem sobre os efeitos dessa associação, mas concordam que ela expressa mudanças econômicas, culturais e demográficas do Brasil.
Para o historiador Gustavo Alonso, o sertanejo funciona como um grande guarda-chuva musical porque incorpora referências de diferentes gêneros e acompanha a expansão de cidades pequenas e médias. A permanência da dupla como símbolo do estilo, porém, convive com o crescimento de carreiras solo entre os artistas mais populares da atualidade.
O cantor Rick, da dupla Rick & Renner, morreu em 22 de setembro de 2026, aos 59 anos, após a queda de um helicóptero na Serra Catarinense. A morte ocorreu enquanto o gênero passava por mais uma fase de renovação e foi mencionada na reportagem como parte da trajetória histórica do sertanejo romântico.
Fonte: g1