A música sertaneja voltou ao topo das paradas brasileiras no primeiro semestre de 2026, impulsionada por “Eu Te Seguro (Ao Vivo)”, de Panda, segundo levantamento da Pró-Música Brasil com dados de plataformas de streaming. O resultado evidencia a capacidade do gênero de se reinventar ao longo de quase um século.
O levantamento reúne reproduções de serviços como Spotify, YouTube, Deezer, Apple Music, Amazon Music e Napster. A liderança de Panda foi confirmada por rankings de mercado e marcou o retorno do sertanejo ao primeiro lugar entre as músicas mais ouvidas do país.
A fase atual, porém, está distante da música caipira registrada nas primeiras décadas do século 20. A canção “Jorginho do Sertão”, de Cornélio Pires, gravada por Mariano e Caçula em 1929, é considerada um marco da transformação do repertório rural em produto da indústria fonográfica.
Na avaliação de pesquisadores ouvidos pelo g1, o gênero acompanhou a urbanização brasileira. As primeiras canções narravam o cotidiano do campo; depois, passaram a abordar a saudade dos migrantes, o romantismo, as relações amorosas e, mais recentemente, festas, consumo e ostentação.
O historiador Gustavo Alonso define essa trajetória como um processo de incorporação de influências de diferentes origens. Ao longo das décadas, o sertanejo absorveu elementos da guarânia paraguaia, da ranchera mexicana, da Jovem Guarda, do pop, do rock, do axé, do funk e da música eletrônica.
Entre os principais nomes da fase tradicional estão Tonico & Tinoco, dupla que ajudou a levar a música caipira para além do público ligado ao campo. Nos anos 1960, artistas como Léo Canhoto & Robertinho aproximaram o gênero da sonoridade urbana, com guitarras elétricas e maior ênfase nas letras românticas.
A guinada pop se consolidou nos anos 1980, com duplas como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano, João Paulo & Daniel e Rick & Renner. Rick Sollo morreu em 22 de setembro de 2026, aos 59 anos, na queda de um helicóptero em Santa Catarina; a investigação sobre as causas do acidente é conduzida pelo Cenipa.
Na virada do século, o chamado sertanejo universitário aproximou o gênero do público jovem e ampliou a presença de artistas solo. O movimento também abriu espaço para o feminejo, com cantoras como Marília Mendonça, Maiara & Maraísa e Simone & Simaria entre os nomes de maior alcance.
Outra vertente recente é o agronejo, que combina o sertanejo com batidas eletrônicas e elementos do pop e do funk. Pesquisadores apontam que essa produção passou a explorar com mais frequência a estética do agronegócio, a ostentação e relações amorosas efêmeras.
Para especialistas, a permanência do gênero está ligada à sua capacidade de funcionar como um guarda-chuva musical. A formação em dupla continua presente no imaginário popular, mas o sertanejo contemporâneo também se apoia em carreiras solo e em narrativas que retratam a vida de cidades pequenas e médias.
Fonte: g1