Brasília, DF – 06/04/2026 – Líderes evangélicos têm utilizado sua influência para apoiar pré-candidatos nas eleições de outubro. As ações incluem pedidos explícitos de voto, eventos religiosos com a participação de postulantes e o uso de meios de comunicação para engajar o eleitorado evangélico.
A estratégia levanta debates entre especialistas em direito eleitoral sobre os limites da atuação religiosa na política. A lei eleitoral proíbe propaganda em templos.
O deputado Eduardo da Fonte (PP-PE), pré-candidato a senador, participou de um culto da Assembleia de Deus em São Paulo, onde o líder Eliseu Virgílio o apresentou como "futuro senador". O bispo Samuel Ferreira também endossou a candidatura, afirmando que "vai ficar mais fácil de fazer campanha".
Samuel Ferreira, em vídeo divulgado nas redes sociais, pediu apoio para o deputado Marco Feliciano (PL-SP) concorrer ao Senado, destacando a necessidade de "alguém que pense em nome da igreja ali no Senado".
O Partido Liberal (PL) ainda não definiu seu nome para uma das vagas ao Senado em São Paulo, com o vice-prefeito Coronel Mello Araújo e o deputado Mario Frias também cotados.
O ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, busca retornar à política como deputado por Minas Gerais, associando-se a rádios e promovendo eventos em casas de espetáculo, que ele defende não configurarem uso de estrutura religiosa. Cunha filiou-se ao Republicanos.
O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) participou de um congresso de jovens evangélicos em Goiás, defendendo a presença cristã na política. Seu pai, Edesio de Oliveira, é fundador da Igreja Graça & Paz.
Dados do Censo indicam que evangélicos somam 26,9% da população brasileira, um crescimento em relação a pesquisas anteriores, enquanto o catolicismo, embora ainda majoritário com 56,7%, apresenta tendência de queda.
O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que almeja o Senado, filiou Gunnar Nunes Nicácio, filho do presidente da Assembleia de Deus em Alagoas, ao PP. Gunnar, que já foi deputado estadual, deve se candidatar a deputado federal.
Em Minas Gerais, o pré-candidato a senador Marcelo Aro (PP) tem proximidade com a Igreja Universal e participa do programa "Balanço Geral" da Record, comandada por Edir Macedo.
O uso de igrejas em campanhas não é novidade. Em 2022, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro visitou templos pelo país. Sua aliada, a ex-ministra Damares Alves, foi eleita senadora pelo Republicanos no Distrito Federal.
Na campanha de 2022, o presidente Lula enviou uma carta aos evangélicos e criticou a legalização do aborto para tentar reduzir a resistência do segmento.
João Marcos Pedra, secretário-geral da Comissão de Direito Eleitoral da OAB-DF, alerta que atos políticos em igrejas podem ser ilegais se configurarem abuso ou pedido de voto explícito ou implícito, com uso da estrutura religiosa.
Rubens Beçak, professor de Direito da USP, descreve a situação como uma "zona cinzenta", sugerindo que o TSE necessita de regulamentação mais clara sobre o tema.
Fonte: O Globo