A saída de Tarcísio de Freitas (Republicanos) da corrida presidencial abriu espaço para negociações entre partidos do Centrão e o governo federal. Ministros de siglas aliadas ao Planalto buscam costurar apoios estaduais à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, especialmente no Nordeste, região de forte popularidade do petista. A ascensão de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como potencial candidato da direita e a iminente apresentação de um nome pelo PSD para a disputa presidencial alteram o cenário.
Dirigentes de legendas como Republicanos, PSD, PP e União Brasil viam em Tarcísio o nome preferencial para disputar o Planalto. Sem sua candidatura, aliados de Lula vislumbram a oportunidade de enfraquecer o apoio nacional do Centrão à oposição e garantir o suporte de diretórios regionais. Juntos, estes partidos controlam oito ministérios e detêm bancadas significativas na Câmara e no Senado.
O ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho (Republicanos), sinalizou a possibilidade de o partido liberar seus diretórios estaduais para apoiar candidaturas divergentes, incluindo a de Lula. "Gostaria que o Republicanos apoiasse o presidente Lula, mas sei das dificuldades por uma questão regional", afirmou.
A articulação do Centrão por acordos estaduais já estava em andamento antes mesmo da indicação de Flávio Bolsonaro. Presidentes do PSD, PP e União Brasil negociavam alianças com pré-candidatos a governos estaduais, inclusive no Nordeste.
O presidente do Republicanos, Marcos Pereira, indicou que, diferentemente de um cenário com Tarcísio como candidato, a legenda tende a permitir que os estados definam seu apoio. Onde houver maior afinidade com o PT, o endosso a Lula será liberado.
Pré-candidatos a governador que se aproximavam de Tarcísio, como Ciro Gomes (PSDB) no Ceará, ACM Neto (União Brasil) na Bahia e Eduardo Braide (PSD) no Maranhão, agora se distanciam com a entrada de Flávio Bolsonaro na disputa. Na Bahia, o PSD, que cogitava desembarcar da aliança com o PT estadual para apoiar Tarcísio, freou seus planos. União Brasil e PP baianos, apesar de sinalizarem enfrentamento ao PT local, demonstram pouco entusiasmo com Flávio.
No Ceará, Maranhão e Pernambuco, a federação União-PP está dividida quanto ao apoio a Lula. Ciro Gomes, mesmo buscando aliança com o PL no Ceará, indicou que não apoiará Flávio Bolsonaro.
A ausência de Tarcísio também facilita a posição da governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), que agora tem caminho livre para buscar o apoio de Lula. Em Minas Gerais, a ala pró-Lula do União Brasil tende a se fortalecer com a possível filiação do ex-presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD), que se reuniu com o presidente recentemente.
Mesmo com o PSD apresentando candidatos próprios à Presidência, como os governadores Ronaldo Caiado, Eduardo Leite e Ratinho Júnior, a tendência é que o partido libere apoio a Lula em estados como Pernambuco, Bahia, Sergipe e Rio.
A saída de Tarcísio também favorece um acordo entre Arthur Lira (PP), ex-presidente da Câmara, e Lula. Lira cogita ser candidato ao Senado e pode abrir palanque para o petista.
No Nordeste, o Rio Grande do Norte é um dos poucos estados com tendência a apoiar Flávio Bolsonaro, através de aliança articulada pelo senador Rogério Marinho (PL-RN). No entanto, a maioria dos estados nordestinos tende a apoiar Lula. No PP, o ministro André Fufuca trabalha para garantir o apoio da legenda no Maranhão ao presidente e busca endossos de aliados de centro-direita.
O PT busca fortalecer a aproximação com presidentes de legendas do Centrão. O presidente do PT, Edinho Silva, reuniu-se com Ciro Nogueira e Antonio Rueda para discutir cenários regionais. Ministros do União Brasil e do PSD também atuam para garantir apoio interno a Lula.
O MDB, apesar de sonhar com a vice na chapa de Lula, tem proximidade com o presidente em estados como Pará e Alagoas. Ministros como Renan Filho (Transportes) e Jader Filho (Cidades) defendem o acompanhamento de Lula pelo partido.
Governistas admitem a possibilidade de oferecer a vaga de vice para um partido de centro em troca de apoio formal, embora a avaliação de Geraldo Alckmin (PSB), atual vice, seja positiva.
Fonte: O Globo