Em um mundo onde a tecnologia muitas vezes afasta as pessoas, para David Duda, de 62 anos, e Hong Liang, de 57, um aplicativo de tradução se tornou a ponte essencial para o amor e o casamento. O casal, que fala inglês e mandarim respectivamente, depende de um smartphone e do aplicativo Microsoft Translator para se comunicar no dia a dia, transformando legendas de filme em legendas para a vida real.
A necessidade de atenção mútua durante a comunicação, com um falando e o outro lendo a tradução no celular, paradoxalmente, aproximou o casal. David explica que a dinâmica exige presença e foco, o que, segundo ele, é benéfico para o relacionamento. "Você precisa prestar mais atenção, o que obviamente é uma coisa boa quando você está se relacionando com seu cônjuge", afirma.
A história de amor começou na China em 2019, e ganhou força durante a pandemia de Covid-19, quando as restrições e o isolamento os levaram a passar horas conversando online. As dificuldades iniciais com a tradução, que incluíram mal-entendidos como a tradução de "Covid-19" para "nova coroa", foram superadas com paciência e adaptação. "Bu bu hao", como eles chamam os erros de tradução, tornou-se uma expressão familiar, seguida por novas tentativas ou pelo uso de linguagem corporal e ilustrações.
Apesar das imperfeições da tecnologia, especialistas como Lera Boroditsky, professora de ciência cognitiva, ressaltam a importância do acesso à comunicação. "Essas traduções vão ser imperfeitas, mas ter acesso é melhor do que não ter acesso", pontua.
O casal, que já havia passado por experiências matrimoniais anteriores, valoriza a comunicação atenta e a ausência de conflitos intensos, facilitada pela barreira tecnológica. "Talvez a melhor maneira de ter um casamento duradouro seja falar línguas diferentes", brinca David.
Enquanto David aprende mandarim com livros infantis e aplicativos, e Hong estuda inglês, eles admitem que a fluência ainda está distante. No entanto, o encanto e o cuidado mútuo, aliados à tecnologia, sustentam a união. "A tecnologia está tornando a intimidade possível em condições nas quais ela, de outra forma, não existiria", conclui Per Urlaub, professor do MIT. O amor, para eles, transcende as barreiras linguísticas, provando que a conexão humana pode florescer nos lugares mais inesperados.
Fonte: O Globo