Na tentativa de ampliar os ganhos políticos com a presença da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro nos palanques em 2026, o PL (Partido Liberal) decidiu investir R$ 16,2 milhões no setor do partido voltado às mulheres. Este valor representa praticamente o dobro do desembolsado pelo PT (Partido dos Trabalhadores), que foi de R$ 8,3 milhões, e supera significativamente o investimento de outras siglas com bancada expressiva no Congresso Nacional. Vale ressaltar que, atualmente, Michelle está licenciada de suas funções, enfrentando questões de saúde que impedem sua participação ativa.
Gastos do PL com a campanha feminina
Os dados sobre os gastos foram levantados pelo GLOBO com base nas prestações de contas de 2024, as mais recentes disponibilizadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que considerou os gastos declarados pelos diretórios nacionais, estaduais e municipais das sete principais legendas do Brasil.
O desembolso do PL com a ala feminina tem como foco promover uma série de eventos em que Michelle atua como a protagonista, repetindo uma estratégia já utilizada em 2025, o que cria uma organização permanente de pré-campanha. Aproximadamente R$ 5,2 milhões foram direcionados a esses eventos, focados em “eventos promocionais” e logística. Em uma comparação direta, o PT investiu apenas R$ 130 mil em iniciativas semelhantes voltadas para o público feminino.
Eventos e estratégia de aproximação
O maior gasto registrado foi de R$ 280 mil para a realização de sonorização e estrutura de palco no “Encontro do PL Mulher” em Rio Branco, no Acre. Outro evento em Sergipe custou R$ 240 mil. Esses encontros têm o propósito de reforçar a conexão do PL com o movimento evangélico, apresentando shows, discursos emocionantes de Michelle, que muitas vezes misturam elementos de cultos neopentecostais e palestras motivacionais.
As ações da ex-primeira-dama pelo país não apenas visam fortalecer sua imagem popular, mas também servem como uma plataforma para candidatos do PL nas Assembleias Legislativas, Câmara e Senado. A prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro em agosto reforçou a importância das viagens de Michelle, que passaram a substituir a presença física do marido nos eventos. Assim, muitos começam a ver Michelle como uma potencial sucessora na corrida presidencial.
A imagem política de Michelle Bolsonaro
O périplo pelo país ajudou a consolidar a imagem política de Michelle entre o eleitorado feminino e o público evangélico. Segundo pesquisas do Datafolha, ela apresenta a melhor intenção de votos entre mulheres se comparada a outros nomes da oposição. Durante uma de suas falas em Londrina, ela criticou o PT, afirmando que “nós somos luz nesse mundo” e atacou o partido por suas pautas, que assustam muitos eleitores conservadores.
Além disso, Michelle busca ressignificar algumas pautas identitárias de esquerda, ao afirmar que “as mulheres fazem política com feminilidade e não com feminismo”, apresentando-se como uma alternativa que não demoniza os homens. A deputada federal Bia Kicis, do PL, reafirma a importância de Michelle, ressaltando seu carisma e dedicação em angariar novas filiações ao partido.
Desafios e tensões familiares
Em 2024, o PL também destinará R$ 1,8 milhão em passagens aéreas, um montante quase cinco vezes maior do que o gasto pelo Republicanos, segundo levantamento do TSE. Essas despesas estão acompanhadas de um aumento significativo no número de filiados do partido, que passou de 762 mil em novembro de 2022 para 895 mil atualmente, com uma alta no total de mulheres filiadas.
Entretanto, a ascensão política de Michelle não tem sido isenta de conflitos. Recentemente, surgiram atritos com seus enteados, especialmente em relação à costura de alianças políticas. Em um episódio no Ceará, Michelle vetou uma aliança com Ciro Gomes, exigindo que seus enteados se desculpassem. Essa disputa pelo protagonismo dentro da família Bolsonaro se intensificou quando o ex-presidente decidiu apoiar a pré-candidatura de seu filho Flávio ao Planalto, deslocando as expectativas em relação a Michelle.
No início de dezembro, a ex-primeira-dama decidiu se afastar temporariamente das atividades públicas, alegando questões de saúde. Apesar do investimento financeiro expressivo e das pesquisas favoráveis, observa-se que a hierarquia familiar ainda exerce forte influência sobre sua trajetória política.
Assim, a história de Michelle Bolsonaro nas eleições de 2026 se configura em um complexo jogo de poder, onde a política se entrelaça com laços familiares e ambições eleitorais, moldando o futuro do PL e do cenário político brasileiro.















