O Papa Leo XIV, em sua primeira entrevista desde sua eleição, revelou que pode haver mudanças na abordagem do Vaticano com relação ao acordo polêmico com a China. O pontífice, que conversou com a Catholic News Agency em julho, afirmou estar ouvindo cristãos perseguidos no país enquanto avalia o futuro da diplomacia papal com Pequim.
Diálogo com a igreja clandestina na China
Leo XIV destacou que está em contato com “um grupo importante de católicos chineses que há anos vivem sob opressão ou dificuldades para exercer sua fé livremente”. O papa afirmou estar buscando “uma compreensão mais clara de como a Igreja pode continuar sua missão diante dessas circunstâncias”.
Ele também mencionou sua experiência pessoal na China, sendo o primeiro papa a visitar o país desde o atual, e ressaltou que suas viagens anteriores ajudaram a entender a complexidade das relações com o governo, líderes religiosos e fiéis locais.
Possível revisão do acordo com Pequim
As declarações indicam uma postura mais flexível do pontífice em relação ao acordo assinado em 2018, que envolve a nomeação de bispos chineses pelo Vaticano e o governo de Pequim. O entendimento, renovado três vezes sob o papado de Francisco, enfrenta críticas de ativistas de direitos humanos devido ao aumento da repressão à Igreja clandestina na China.
“É uma situação muito delicada. A longo prazo, não pretendo afirmar que farei ou não farei algo específico”, afirmou Leo XIV. “Estou aberto a diálogos contínuos e buscando uma melhor compreensão para que a Igreja possa cumprir sua missão”.
Posicionamento sobre política internacional
O papa também comentou sua postura diante de questões internacionais envolvendo Estados Unidos, Gaza e a Ucrânia, reiterando seu desejo de manter uma atuação imparcial e evitar se envolver em disputas partidárias.
“A Igreja não deve se envolver na política partidária, mas pode levantar questões que sejam realmente fundamentos do Evangelho”, declarou. Leo acrescentou que, por sua origem americana, entende os dilemas do país e que estaria disposto a dialogar com líderes como Donald Trump, caso a oportunidade surgisse.
Ele destacou também que já conversou com o senador JD Vance sobre a importância do respeito à dignidade humana e criticou a interferência de interesses econômicos em decisões internacionais. “A política dos Estados Unidos, muitas vezes, prioriza o econômico em detrimento dos direitos humanos”, afirmou.
Reflexões sobre desigualdade, inteligência artificial e guerra
O pontífice comentou a crescente desigualdade econômica, alertando que o aumento da riqueza de figuras como Elon Musk, considerado o potencial primeiro trillionaire do mundo, é preocupante. “Se o valor de tudo for medido apenas pelo lucro, entramos em um caminho perigoso”, disse.
Sobre a inteligência artificial, Leo XIV alertou para o risco de crise social caso a automação avance sem controle. “Se poucos puderem viver bem enquanto a maioria fica à margem, será um grande problema”, alertou.
Conflitos e mediação internacional
O papa abordou a situação em Gaza, dizendo que a Igreja não pode declarar o fato de genocídio, mas enfatizando a necessidade de maior ajuda humanitária. “O apoio dos Estados Unidos, por sua influência global, é fundamental para pressionar por paz e ajuda à população de Gaza”, afirmou.
Em relação à guerra na Ucrânia, Leo XIV revelou que a Santa Sé ofereceu mediação e afirmou que busca uma postura neutra, promovendo diálogo para evitar uma maior escalada do conflito. Ele também mencionou a possibilidade de ajudar a resolver a divisão dentro da Igreja Ortodoxa, entre Moscou e Constantinopla, por meio do diálogo interreligioso.
Fim do papel das Nações Unidas e crise de valores
O pontífice reconheceu o enfraquecimento da ONU na atualidade, observando que as relações internacionais se tornaram mais bilaterais e menos multilateral. Ele também questionou o “desfalque” nos valores humanos e sociais, ressaltando a importância do respeito à vida, à família e à dignidade humana em um mundo cada vez mais polarizado.
Missão da Igreja no mundo
Na biografia “León XIV: ciudadano del mundo, misionero del siglo XXI”, publicada em espanhol e com edições previstas em inglês e português, Leo XIV reafirma que a missão da Igreja é essencialmente espiritual, não política. “Minha tarefa é anunciar a Boa Nova, pregar o Evangelho. Não vejo minha função como a de resolver todos os problemas do mundo, mas como a de manter viva a mensagem de Cristo”, declarou.
As declarações reforçam a posição de Leo XIV como um líder que busca equilibrar a influência diplomática com a missão espiritual da Igreja, diante dos complexos desafios globais.