No dia mais quente do verão de 2023, o Rio de Janeiro registrou temperaturas alarmantes, com a Vila Militar atingindo 40,8°C e áreas como o Complexo do Alemão, 42,2°C. Esse fenômeno se tornou pauta de um estudo realizado pelo projeto do Observatório do Calor. A pesquisa, fruto de uma parceria entre a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima e a ONG Voz das Comunidades, evidencia as dramáticas consequências das mudanças climáticas nas favelas e comunidades carentes da cidade.
A estrutura das ilhas de calor nas comunidades
Especialistas identificam a presença das chamadas “ilhas de calor”, que ocorrem em áreas urbanas devido à falta de árvore e à impermeabilização do solo pela urbanização desenfreada. A climatologista Núbia Armond, da UFRJ, destaca que as comunidades cariocas, como a Penha e Madureira, apresentam uma alarmante taxa de 0% de arborização em diversos pontos.
Quando diversas ilhas de calor se aglomeram, o fenômeno é chamado de “arquipélago de calor”, sendo o Complexo do Alemão um exemplo claro desse problema. “A falta de planejamento urbano e a ausência de políticas públicas eficazes agravam as altas temperaturas nessas áreas densamente povoadas”, afirma Gabriela Conc, diretora do Voz das Comunidades.
Como o calor extremo impacta a saúde
Não é apenas a temperatura medida do ar que afeta os moradores; as condições do ar em circulação também desempenham um papel crucial na qualidade de vida. Falta de árvores e de infraestrutura essencial torna a população mais vulnerável a problemas de saúde, como doenças circulatórias e dermatológicas.
Além disso, as interrupções frequentes no abastecimento de água e eletricidade durante ondas de calor intensas agravam a situação. A pesquisa aponta que muitos moradores relatam dificuldades para se refrescar em dias de calor extremo, devido à falta de recursos básicos.
Desigualdade social e racismo ambiental
A pesquisa também evidencia que o calor extremo não é um problema isolado, mas está intimamente ligado a questões sociais e raciais. “Quando o poder público falha em investir em infraestrutura urbana em comunidades predominantemente negras e periféricas, perpetua-se uma desigualdade que é racial e territorial”, alerta Conc.
O Alto da Boa Vista, rodeado pela Floresta da Tijuca, é apontado como a região mais fresca do Rio, evidenciando a disparidade em comparação a áreas como o Complexo do Alemão. Essa realidade não deve ser considerada meramente “natural”, mas sim o resultado de escolhas políticas que afetam desproporcionalmente as comunidades mais vulneráveis.
A população em situação de rua e sua vulnerabilidade
Além dos residentes das comunidades, a população em situação de rua apresenta um risco ainda maior durante as ondas de calor. A falta de acesso a água potável e abrigo agrava a exposição ao calor. Segundo Armond, as condições de saúde dessa população deterioram-se significativamente, e o calor se mostra mais prejudicial que a chuva.
Caminhos para mitigação do calor extremo
As especialistas concordam que a melhor forma de combater o calor extremo nas comunidades é aumentar a cobertura vegetal. Isso pode envolver a criação de praças arborizadas, telhados verdes e a utilização de materiais de construção que absorvam menos calor, como telhados reflexivos e superfícies claras.
“É fundamental que o poder público escute as comunidades e implemente medidas que atendam às suas necessidades, como um mapeamento de regiões com 0% de arborização e intervenções que promovam áreas verdes”, destaca Armond.
Além disso, medidas como a redução do tráfego de veículos e a promoção do transporte público coletivo também são sugeridas como formas de aliviar os efeitos do calor nas áreas urbanas. Sem dúvidas, a busca por soluções sustentáveis e inclusivas deve ser a prioridade nas ações futuras.
Enquanto isso, o Rio de Janeiro continua a enfrentar desafios urgentes, e a luta contra o calor extremo se entrelaça com questões de justiça social e ambiental. A necessidade de uma ação integrada e consciente que envolva todos os setores da sociedade nunca foi tão clara.


