No dia 9 de janeiro, as Filipinas viveram a maior celebração do Sagrado Nazarene na história, com a participação de mais de 9,6 milhões de fiéis que acompanharam a tradicional procissão de 30 horas em Manila. A Traslacion ocorreu neste ano com o percurso mais longo já registrado, marcando um momento de fé e devoção intensos, mesmo diante de críticas a políticos corruptos que também foram alvo de homilias durante a celebração.
Procissão mais longa da história e maior número de devotos
A procissão do Cristo Negro, que percorreu as ruas do distrito de Quiapo, durou 30 horas, 50 minutos e 1 segundo, conforme informações da polícia local, registrando o recorde mundial. Segundo a Major Hazle Asilo, porta-voz do Escritório de Polícia da Região Metropolitana, o evento superou a edição do ano passado, que durou 20 horas e 45 minutos e contou com cerca de 8,1 milhões de devotos.

Maria Christine Rey, mãe de quatro filhos, afirmou que a experiência da procissão é uma inspiração: “Olho para o Nazarene, que carregou a cruz para nos salvar. Devemos ser fortes e perseverantes em todas as situações”. O estudante universitário John Quilaquil também destacou a importância do momento, apesar de estar doente: “Esta traslacion é muito especial. É a mais longa da história e me trouxe experiências que vou guardar para sempre”.
Críticas aos políticos envolvidos em corrupção
Na missa celebrada no Quirino Grandstand antes da procissão, o bispo Rufino Sescon Jr. criticou duramente políticos envolvidos em corrupção de obras de infraestrutura e obras públicas, consideradas “fantasmas” ou mal feitas. Em seu discurso, pediu que renunciassem por causa do prejuízo causado à população e ao país.
“Hoje, alguns se recusam a renunciar, mesmo tendo feito coisas ruins ou prejudicado os mais pobres, enquanto o país sofre com as enchentes constantes”, afirmou o bispo. “Vergonha na cara! Que pelo menos tenham a dignidade de sair para o bem do povo”.

As forças policiais mobilizaram mais de 18 mil agentes para garantir a segurança durante o evento, que terminou com quatro óbitos registrados oficialmente. A polícia esclareceu que o fotógrafo que faleceu no dia 9, enquanto cobria a procissão, não foi vítima do evento, mas devido a problemas de saúde preexistentes.
Mensagem de humildade do arcebispo
Antes do início da celebração, o arcebispo de Manila, Cardeal Jose Advincula, liderou a novena de cinco missas. Em seu discurso, pediu aos fiéis que cultivassem a humildade, o amor verdadeiro e a devoção desinteressada, ressaltando o papel da fé na vida cotidiana.
“Que possamos pedir a graça da humildade, do amor puro e da devoção que não seja para exibir, mas para servir a Deus de coração sincero”, declarou Advincula. Ele também destacou o valor da entrega sem esperar reconhecimento ou recompensa.
Legado de devoção e história da imagem
A imagem do Cristo Negro chegou às Filipinas em 1606, trazida pelos missionários agostinianos que desembarcaram em Manila, trazendo uma escultura de madeira de mesquite que representa Jesus carregando a cruz. Desde então, tornou-se um símbolo de fé para milhões de católicos, especialmente durante a tradicional traslacion, que rememora o traslado da imagem em 1787 do local conhecido como Bagumbayan (hoje Parque Rizal) para a Igreja de Quiapo.

Milhares de devotos caminharam descalços e trajando a cor carmesim, símbolo da devoção ao Cristo Negro, na procissão de aproximadamente quatro milhas. O tema oficial foi “Ele Precisa Subir, Eu Também Necessito Descer” (João 3:30). A romaria se encerrou na manhã de 10 de janeiro, após a celebração do novenário que reuniu mais de 9,6 milhões de fiéis.
Fé que resiste ao tempo
O padre Ramon Jade Licuanan, vigário da Basílica de Quiapo, declarou que a devoção ao nazareno nasceu do sofrimento, da fé e da esperança. Para muitos, a crença no poder milagroso da imagem é um farol de esperança, especialmente em tempos difíceis.

O teólogo padre Daniel Franklin Pilario destacou que a devoção popular enfrenta críticas de setores mais formais, que a consideram superstição ou fanatismo, mas ela é vista por muitos como uma resistência diária à opressão social e uma expressão de fé autêntica.
Fonte: Catholic News Agency


