No interior de São Paulo, um vídeo surpreendente gravado no Parque Estadual do Jurupará mostra dois sapos machos tentando acasalar com a mesma fêmea. Registrado pelo guarda-parque e monitor ambiental Edivald Paulo, a cena, que aconteceu em dezembro, chamou atenção pela intensidade da disputa. O vídeo destaca um comportamento natural pouco observado, mas bastante comum nas espécies do gênero Rhinella, popularmente conhecidas como sapos-cururus.
O que revela o vídeo
Durante uma de suas rotinas matinais, Edivald se deparou com o fenômeno inusitado. “Eu já tinha visto casal e dois machos disputando uma fêmea, mas nunca três juntos. Para mim foi um achado e tanto”, relatou o guarda-parque. Esta cena, embora impactante para os espectadores, é um comportamento conhecido dentro do mundo dos anfíbios.
Comportamento dos sapos-cururus
De acordo com o herpetólogo Willianilson Pessoa, as lutas entre machos pelo direito de acasalar com uma fêmea são mais comuns do que muitos pensam. “Esse tipo de comportamento é bem conhecido dentro do gênero. Às vezes não são apenas dois machos, mas até cinco tentando se acoplar à fêmea”, explica ele. Esse fenômeno é intensificado pelo fato de que os machos, muitas vezes, confundem outros machos com fêmeas, especialmente em ambientes escuros ou com alta movimentação.
Intensa competição e reprodução explosiva
A disputa registrada no Parque Jurupará pode ser atribuída a uma série de fatores. A competição pela reprodução é um deles, intensificando a luta quando há mais machos do que fêmeas disponíveis. “Os machos tentam garantir que seus genes sejam passados adiante. Um amplexa a fêmea, enquanto o outro tenta empurrá-lo para fora”, explica Willianilson.
Outro fator importante nesse contexto é a reprodução explosiva típica de muitos anfíbios. “Eles levam um ano inteiro levando uma vida comum. Quando as condições ambientais se tornam ideais, geralmente após chuvas, todos vão para a água ao mesmo tempo para se reproduzir”, relata o especialista. Esse afluxo resulta em diversas interações e, consequentemente, um aumento nas competições.
Consequências da disputa
Apesar da fascinante dinâmica de acasalamento, a competição entre os machos pode ter consequências fatais. “Quando um ou mais machos ficam sobre a mesma fêmea, o peso pode afundá-la e dificultar sua respiração, podendo levá-la a óbito por afogamento”, explica o herpetólogo. No entanto, ele ressalta que esse tipo de ocorrência não costuma representar um risco significativo para a população da espécie, uma vez que os sapos-cururus produzem uma quantidade imensa de ovos, garantindo a continuidade da espécie mesmo em situações adversas.
A importância de observar sem interferir
Edivald destaca a relevância do vídeo como um registro valioso do comportamento natural dos sapos. “Não é todo dia que vemos esse tipo de interação. Registros assim ajudam a entender melhor como esses animais se comportam na natureza”, afirma. Willianilson também faz um alerta importante: não devemos intervir nas cenas que observamos. “Embora possa parecer cruel ou estranho para nós, intervir pode causar impactos maiores. O ideal é observar, registrar e respeitar esse processo natural”, aconselha.
Por fim, a natureza, com suas complexidades e surpresas, continua a nos ensinar. A cena registrada no Jurupará serve como um lembrete de que a vida selvagem opera com suas próprias regras, que muitas vezes não se alinham aos nossos entendimentos de moralidade e compaixão.
Conservação e respeito à natureza
Além do impacto simbólico da luta dos sapos, essa situação também reforça a necessidade de conservação. Entender e respeitar os ciclos naturais, bem como observar a fauna em seu habitat, é fundamental para a proteção da biodiversidade. Iniciativas como a manutenção de parques estaduais são atores essenciais na preservação desses habitats e no monitoramento das espécies locais.
Assim, o vídeo dos sapos-cururus no Jurupará não é apenas um momento curioso na rotina de um guarda-parque; é um lembrete de que a natureza é repleta de histórias complexas e muitas vezes desconhecidas que merecem nosso respeito e apreço.
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