Em seu discurso aos diplomatas no Vaticano nesta sexta-feira (9), o Papa Leo XIV alertou sobre o declínio do multilateralismo e o aumento do uso da força nas relações internacionais. Durante a fala mais extensa de seu pontificado, ele ressaltou que a paz deve ser fruto do diálogo e do respeito às leis humanas e divinas.
Crise do diálogo e risco de conflito
“Uma diplomacia que promove o diálogo e busca consenso está sendo substituída por uma baseada na força, seja por indivíduos ou grupos de aliados. A guerra está voltando e um zelo por ela se espalha”, afirmou o pontífice. Atualmente, 184 países mantêm relações diplomáticas com a Santa Sé.
Para Leo XIV, a busca pela paz deixou de ser uma virtude e passou a ser uma condição imposta por armas, o que ameaça o Estado de Direito, considerado a base de uma convivência civil pacífica. “A paz não deve ser conquistada por armas, mas pelo entendimento e pelo espírito de cooperação”, destacou.
Direitos humanos e crise de valores
O Papa lamentou uma “falha” moderna na defesa dos direitos humanos, especialmente o direito à vida. “A proteção da vida é a fundação indispensável de todos os outros direitos humanos”, afirmou Leo XIV, reforçando que sociedades saudáveis promovem o valor da vida desde a concepção.
Ele também criticou a restrição à liberdade de expressão, de consciência e religiosa, considerando que “a própria estrutura dos direitos humanos está perdendo força, abrindo espaço para repressões e violações”. Segundo o pontífice, isso acontece quando os direitos se tornam autônomos, desconectados da verdade, da natureza e da realidade.
Perseguição religiosa no mundo moderno
Leo XIV abordou a situação da perseguição aos cristãos, considerada uma das crises mais graves de direitos humanos atuais. Ele destacou que mais de 380 milhões de fiéis sofrem discriminações, violações e violência em várias regiões, como no Bangladesh, Sahel, Nigéria e Síria.
O Papa também criticou a discriminação religiosa mesmo em países de maioria cristã na Europa e nas Américas, onde há limitações à liberdade de divulgar o Evangelho ou defender direitos de minorias vulneráveis, como mulheres, migrantes e refugiados.
O uso consciente das palavras
Ele discorreu sobre a importância do significado das palavras na defesa da liberdade de expressão, ressaltando que a perda do vínculo entre linguagem e realidade enfraquece o discurso livre. “A linguagem, quando fragilizada, impede a comunicação verdadeira e favorece a manipulação”, afirmou.
Leo XIV frisou que a liberdade de consciência, que permite a objeção de consciência a atos que violam princípios morais ou religiosos, é um direito fundamental e uma expressão de fidelidade a si mesmo. “Rejeitar esse direito é afastar-se da verdade e do bem comum”, destacou.
A importância da família e a defesa da vida
O Papa pediu atenção à instância familiar, que deve ser protegida como o espaço do amor e da vida. Ele reforçou a rejeição a práticas que ameaçam o início da vida, como o aborto e a fertilização de substituição, e criticou o uso de recursos públicos para financiar procedimentos abortivos.
Para Leo XIV, valores familiares sustentam a sociedade e devem ser preservados para garantir o desenvolvimento de uma cultura de solidariedade e cuidado com os mais vulneráveis, incluindo idosos e doentes.
Pessoas migrantes e cultura do orgulho
O pontífice reiterou que todos os migrantes possuem direitos inalienáveis, e que a luta contra o tráfico de pessoas e a criminalidade deve respeitar a dignidade humana. Ele também refletiu sobre a arrogância e o orgulho como causas de conflitos, puxando exemplos do pensamento de Santo Agostinho.
“O orgulho entorpece os nossos sentidos e impede a compreensão do próximo, sendo muitas vezes a raiz de guerras e divisões”, concluiu Leo XIV, chamando a comunidade internacional à busca por uma convivência mais justa e pacífica.















