Durante o shutdown do governo dos Estados Unidos, líderes republicanos justificaram a recusa em liberar fundos de assistência alimentar como uma questão de legalidade e poder, apesar de análises contrárias e decisões judiciais. Psicólogos descrevem esses comportamentos usando o conceito de “inocência violenta”, uma estratégia de negação que protege a imagem moral dos responsáveis, mesmo quando suas ações causam sofrimento.
Inocência violenta e a negação do poder
Quando políticos afirmam que não há mecanismo legal para liberar recursos de emergência, eles adotam uma postura que mascara a própria decisão e sua responsabilidade — um exemplo clássico de “inocência violenta”, segundo a terapeuta Alexandra Cromer. “Essa ideia sustenta que uma pessoa ou instituição pode causar dano enquanto parece ignorar ou negar sua participação”, explica Cromer ao HuffPost.
Na prática, essa postura usa a moralidade e a proceduralidade como escudos, dificultando a responsabilização. “Eles insistem que estavam seguindo regras, mesmo quando essa justificativa contrasta com análises jurídicas e ações anteriores durante outros períodos de crise”, afirma Cromer.
Casos recentes e controvérsias jurídicas
Embora os líderes tenham alegado que os fundos de contingência do SNAP — programa de auxílio alimentar — não poderiam ser utilizados, documentos e análises jurídicas demonstram o contrário. Estudos do Center on Budget and Policy Priorities (CBPP) e memórias do Departamento de Agricultura indicam que esses recursos poderiam, sim, ter sido empregados para manter o benefício durante o shutdown que ocorreu no governo Trump.
Recentemente, dois tribunais federais determinaram que o governo não poderia mais continuar a cortar benefícios alimentares de milhões de americanos, reforçando a ideia de que a justificativa de impotência é uma estratégia para evitar respondabilidade.
O mecanismo da inocência violenta na política e na sociedade
Segundo Cromer, essa estratégia não é exclusiva de políticos. “Ela se manifesta em relacionamentos pessoais, onde alguém nega responsabilidade por ferimentos emocionais, e no contexto político, onde a negação de poder desvia a atenção das decisões que podem ser alteradas”, ela explica.
Ao se recusarem a reconhecer sua influência, os responsáveis fragilizam a possibilidade de mudança. “Esse padrão impede o crescimento, pois a negação da responsabilidade sustenta que a situação está fora do controle, mesmo quando há decisões políticas claras”, acrescenta.
Caminho para a responsabilização real
Para Cromer, o primeiro passo para quebrar esse ciclo é a consciência contínua de si mesmo e a disposição para o feedback — mesmo quando é difícil. “Reconhecer o impacto próprio exige coragem, e a mudança só se concretiza na medida em que se aceita a responsabilidade”, afirma.
Ela sugere que instituições e indivíduos criem planos de ação específicos para evitar repetir erros, investindo em educação e autoconhecimento. “A inocência violenta só prevalece onde há medo de confrontar a própria influência”, conclui.
Impasse moral e a necessidade de mudança
O conceito de inocência violenta revela a dinâmica sutil de autoengano que justifica ações que perpetuam o sofrimento social. A luta contra esse padrão envolve reconhecer o poder, aceitar a responsabilidade e promover uma cultura de accountability, que fortalece a moralidade genuína ao invés de mascarar seus impactos.

