Na imensidão da Amazônia, cientistas brasileiros estão realizando um experimento inovador que promete elucidar como a floresta reagirá às mudanças climáticas previstas para 2060. O projeto, apelidado de AmazonFACE — uma “máquina do tempo” — está situado a cerca de 100 km de Manaus e consiste em 96 torres de alumínio que lançam gás carbônico (CO₂) em concentração 50% maior do que a atual. O objetivo é monitorar as respostas da vegetação diante do aumento desse gás, um fenômeno que poderá ser comum nas próximas décadas.
O que é o AmazonFACE?
O AmazonFACE, que significa “Enriquecimento de CO₂ ao ar livre”, é um dos maiores experimentos de mudanças climáticas a céu aberto do mundo. O projeto é desenvolvido por pesquisadores da Unicamp, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e do governo britânico, com investimento de R$ 122 milhões. De acordo com Carlos Alberto Quesada, coordenador do projeto, a pesquisa busca entender como o aumento da concentração de CO₂ afetará a flora da Amazônia e, por extensão, a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos que a floresta proporciona.
Como o experimento funciona?
As 96 torres, com 35 metros de altura, estão dispostas em seis anéis de 30 metros de diâmetro, permitindo o lançamento do CO₂ em 300 árvores da região, de maneira controlada. Esta megaestrutura foi projetada para simular a interação da floresta com atmosferas ricas em gás carbônico, projetando resultados que poderão contribuir para políticas públicas e conservação ambiental.
A logística por trás do experimento é igualmente complexa. O CO₂ é transportado em forma líquida, armazenado em tanques próximos às torres e liberado em forma gasosa através de um sistema de tubulação controlado por sensores. O experimento se estenderá por pelo menos dez anos, tempo necessário para que os pesquisadores analisem as variações na biodiversidade, ciclagem de nutrientes e os fluxos de umidade na floresta.
Impactos e relevância do estudo
O AmazonFACE não apenas visa descobrir como as florestas respondem ao aumento de CO₂, mas também busca entender os impactos sobre as populações da região Amazônica e como esses resultados podem informar decisões em escala global sobre a conservação ambiental. Segundo estudos prévios, a Amazônia desempenha um papel crucial no equilíbrio climático do planeta, influenciando a pluviometria em várias partes do Brasil, sendo responsável por entre 30% e 50% das chuvas que caem no sul do país.
Os efeitos do aumento na concentração de CO₂ ainda são motivo de debate. Um artigo anterior da equipe do AmazonFACE alertou que, caso a floresta atinja um “ponto de não-retorno”, pode haver um colapso severo que transformaria vastas áreas em savanas, gerando prejuízos econômicos que podem variar entre U$ 957 bilhões e U$ 3,5 trilhões.
Expectativa para a COP30
Os resultados iniciais do AmazonFACE são esperados para os primeiros dias de operação, prevista para 2026. Este experimento será um dos destaques da COP30, que ocorre em Belém (PA), a partir de 10 de novembro. O coordenador da delegação da Unicamp na COP30, Roberto Donato, enfatiza que a pesquisa é estratégica, mostrando a capacidade do Brasil em contribuir significativamente para discussões sobre mudanças climáticas.
A partir das informações geradas pelo AmazonFACE, os cientistas esperam não apenas compreender melhor a dinâmica da Amazônia sob condições climáticas extremas, mas também orientar políticas necessárias para a sua preservação e uso sustentável. Os resultados poderão diluir incertezas relacionadas aos impactos das mudanças climáticas, ajudando a prevenir futuros danos à floresta e a garantir a saúde do ecossistema que é vital não apenas para o Brasil, mas para o mundo.
Conclusão
A iniciativa do AmazonFACE reflete a união de esforços entre pesquisa científica e a urgência de se lidar com as mudanças climáticas, enfatizando a importância da Amazônia como reguladora do clima global e sua rica biodiversidade. Entender e antecipar os impactos que a folha da floresta sofrerá nas próximas décadas é fundamental para o futuro do planeta.


