Recém-instalada no Congresso Nacional, a CPI do INSS tem promovido mais do que investigações sobre irregularidades em benefícios previdenciários: virou um palco estratégico para deputados e senadores em busca de visibilidade e reconstrução de imagem às vésperas das eleições de 2026. Entre os protagonistas estão parlamentares que atravessam momentos de fragilidade em seus partidos ou que sofreram derrotas recentes.
A busca por novos ares políticos
Um dos principais exemplos é o presidente da CPI, senador Carlos Viana (Podemos-MG). Após fracassar nas disputas pelo governo de Minas Gerais, em 2022, e pela prefeitura de Belo Horizonte, em 2024, ele busca reposicionamento para tentar a reeleição no próximo ano. Eleito na onda bolsonarista em 2018, Viana perdeu capital político nos últimos anos ao romper com o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Quando concorreu ao governo de Minas, somou desavenças com o então presidente da República, que flertava com o governador Romeu Zema (Novo). Após trocar o PL pelo Podemos, em 2023, concorreu à prefeitura de Belo Horizonte, no ano passado, mas terminou a corrida eleitoral com apenas 1% dos votos válidos. Sua intenção de concorrer à reeleição ao Senado esbarra nas costuras políticas do Podemos, que já indicou a intenção de apoiar a candidatura de Marcelo Aro (PP), atual secretário de Governo de Minas. Viana vinha considerando migrar para o União Brasil, mas o partido pode deixá-lo sem espaço, uma vez que passará a formar uma federação com o PP de Aro.
Reflexão sobre a visibilidade na CPI
Antes da CPI, seus interlocutores sugeriam que tentasse outro cargo, como deputado estadual, o que ele tem refutado. Viana admite que a CPI oferece visibilidade, mas avalia que o ganho eleitoral só virá se seu trabalho for bem desempenhado. “(Na eleição municipal) Não quis me alinhar à extrema direita e isso naturalmente não me deu tempo para um reposicionamento eleitoral, que acabou resultando numa eleição com menos votos. Para senador é diferente. É outro momento, terei sete anos de trabalho para usar na campanha”, disse ele.
O relator da CPI, deputado federal Alfredo Gaspar (MDB-AL), é outro que pode aproveitar a visibilidade para alçar novos voos políticos. Após perder a disputa pela prefeitura de Maceió em 2020, ele desembarcou do grupo político do senador Renan Calheiros (MDB-AL) e se aproximou do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL). Em Alagoas, pesquisas internas indicam Gaspar em posição competitiva ao Senado. O deputado, no entanto, nega as pretensões eleitorais: “Nunca trabalhei por destaque, mas por resultados. Sempre gostei de investigação e tenho a oportunidade de trabalhar no colegiado por melhorias. Se houver projeção, será consequência natural dos trabalhos. Queria que o destaque fosse o relatório”.
Outros parlamentares em busca de recuo estratégico
Ao menos outros sete titulares da comissão também têm planos eleitorais que podem ser catapultados pelo holofote da CPI. A senadora Soraya Thronicke (União-MS) enfrenta dilema similar ao de Viana: eleita com votos bolsonaristas, tentará se reeleger após romper com o ex-presidente. Já o deputado Paulo Pimenta (PT-RS) e os senadores Izalci Lucas (PL-DF) e Dorinha Seabra (União-TO) estão cotados para disputar governos estaduais. O ex-ministro da Secretaria de Comunicação de Lula, Pimenta é cotado para concorrer ao governo do Rio Grande do Sul. No colegiado, assumiu o posto de coordenador do governo federal e evita falar de eleições: “Coordeno toda nossa presença: o que vamos votar, trato com o presidente. É uma articulação necessária, e fomos bem nessas últimas sessões.”
Além disso, há também deputados em baixa tentando reposicionamento. Rogério Correia (PT-MG) teve pouco mais de 4% dos votos na disputa pela prefeitura da capital mineira em 2024 e entrou na CPI como suplente. Na última semana, ele foi promovido a titular.
Impacto da CPI na política nacional
A experiência da CPI da Covid mostra o efeito que essas comissões podem ter na política nacional. Transmissões, entrevistas e repercussão das sessões do colegiado servem como palanque para os parlamentares. Simone Tebet (MDB-MS), terceira colocada nas eleições presidenciais e atualmente ministra do Planejamento, é um exemplo de alguém que ganhou projeção no colegiado. “A CPI funciona como um espaço estratégico de construção de alianças. Deputados e senadores fortalecem vínculos locais e regionais, fazem favores, protegem aliados e ampliam sua rede de influência. Esse capital político se traduz em votos, com o parlamentar retornando à base como alguém na linha de frente dos debates nacionais”, afirma o cientista político Paulo Baía, da UFRJ.
Assim, a CPI do INSS desponta não apenas como um importante campo de investigação, mas também como um verdadeiro laboratório de estratégias políticas, onde os parlamentares buscam reconstruir suas trajetórias eleitorais em um cenário de grande competitividade.