O filme “Após a Caçada”, de Luca Guadagnino, estreia no Festival de Veneza e apresenta uma narrativa pesada, carregada de diálogos filosóficos pretensiosos e pouco convincentes, com Julia Roberts atuando como uma professora de filosofia universitária. A produção busca discutir temas como identidade, moralidade e poder, mas acaba se tornando uma experiência cansativa e vazia.
Fortes discursos, fraco roteiro
Na trama, Roberts interpreta Alma Imhoff, uma professora de Yale que lidera uma vida aparentemente tranquila, até o momento em que uma aluna, Maggie (Ayo Edebiri), revela ter sido vítima de assédio sexual por parte de um colega, Hank (Andrew Garfield). A partir daí, uma série de eventos se desenrola, cheios de diálogos sobre a natureza da verdade e do poder, mas sem grande profundidade ou impacto emocional.
O roteiro de Nora Garrett tenta transitar entre o jogo de aparências acadêmicas e relações pessoais complicadas, mas acaba se perdendo em cenas intermináveis de discussões vazias e atuações mecânicas. Julia Roberts, que costuma brilhar, parece presa a um papel que drena sua energia, enquanto Edebiri luta para dar vida a uma personagem que não é suficientemente desenvolvida para engajamento real.
Filme de ideias, mas sem alma
“Após a Caçada” tenta abordar o foco excessivo na identidade e o contexto de poder na academia, mas o faz de maneira superficial e muitas vezes confusa. O som de Trent Reznor e Atticus Ross, que deveria provocar inquietação, acaba sendo excessivamente pontuado por uma trilha que parece mais uma overdose de artifícios musicais do que uma contribuição de peso.
Visualmente, o filme é refinado, com cenas bem compostas e ambientação de salas de aula e escritórios de elite, mas a frieza estética não consegue esconder a falta de profundidade no roteiro. Roberts aparece sempre bastante introspectiva, consumida por uma angústia que, na verdade, não é bem explorada, deixando a impressão de um papel pouco desafiador para uma atriz de sua estatura.
Personagens sem dimensões e cenas desconexas
As atuações de apoio também deixam a desejar: Edebiri, que poderia trazer mais complexidade ao seu personagem, é limitada por uma escrita rasa, enquanto Michael Stuhlbarg como Frederik, o marido de Alma, tem uma participação que mais parece uma pausa no enredo, sem grandes repercussões.
Chloë Sevigny, como a psicoterapeuta Kim, destaca-se por sua presença escancarada e humor sutil, mas o filme se preocupa demais com diálogos pretensiosos, esquecendo de criar momentos autênticos ou de explorar verdadeiramente as múltiplas camadas de seus personagens.
Perspectivas incertas para o futuro
Embora Guadagnino tenha um histórico de filmes mais inspiradores, como “I Am Love” e “Queer”, aqui sua proposta parece uma tese artística sem grande sabor, que tenta parecer inteligente, mas acaba sendo enjoativamente inócuo. O filme sugere uma crítica às instituições acadêmicas e às relações de poder, mas nunca consegue dar uma resposta convincente ou envolver emocionalmente o espectador.