No dia 28 de agosto, um momento histórico foi celebrado na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) com a entrega da certidão de óbito retificada da estilista Zuzu Angel, que foi morta em 1976. O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania oficializou a retificação que reconhece que a morte de Zuzu foi violenta e causada pelo Estado brasileiro no contexto da nefasta perseguição política que dominou o país durante a ditadura militar (1964-1985). O evento foi simbólico, não apenas por Zuzu, mas também por outras 20 famílias que tiveram seus entes queridos reconhecidos, ratificando a luta por justiça e memória no Brasil.
Um legado de resistência e moda
Zuzu Angel é lembrada não apenas por sua trajetória como estilista, que a fez vestir celebridades internacionais como Liza Minnelli e Joan Crawford, mas também pela sua notável resistência ao regime militar. Sua vida e carreira tomaram um novo rumo após a morte de seu filho, Stuart Angel, um militante que foi torturado e assassinado em 1971. Tornando-se um ícone da luta pela verdade e justiça, Zuzu utilizou sua arte e visibilidade para expor a brutalidade que lidou em sua vida pessoal.
Retificação da certidão de óbito
A retificação da certidão foi realizada em cumprimento à Resolução nº 601/2024 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que estabelece que mortes de dissidentes políticos sejam registradas como não naturais e atribuídas ao Estado. Este reconhecimentó legal foi um importante passo para a reparação histórica e emocional das famílias que perderam entes queridos sob circunstâncias violentas.
A cerimônia de entrega marcou não só a história de Zuzu, mas também um reconhecimento mais amplo e necessário das atrocidades cometidas pelo Estado brasileiro. A secretária-executiva do Ministério, Janine Mello, afirmou: “Trata-se do reconhecimento da verdade histórica sobre a causa da morte dessas pessoas”, enfatizando a importância de honorar a memória dos que sofreram.
O trágico destino de Zuzu Angel
Zuzu Angel faleceu aos 54 anos em um acidente de carro na saída do antigo Túnel Dois Irmãos, em São Conrado, Rio de Janeiro. Contudo, há muitos anos, familiares e ativistas denunciavam que essa tragédia foi na verdade um assassinato encoberto. Em um bilhete manuscrito deixado em 1975, Zuzu antecipou seu destino com uma mensagem poderosa: “Se algo vier a acontecer comigo, se eu aparecer morta por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho”. Essas palavras, escritas no calor do momento da luta e desespero, tornaram-se um testemunho da perseguição que vivia.
Consequências da ditadura no Brasil
O reconhecimento oficial da responsabilidade do regime pela morte de Zuzu Angel foi documentado em 1988 pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. A ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, que participou da cerimônia virtualmente, ressaltou que as consequências da ditadura ainda estão presentes na sociedade brasileira. “É importante nomear o óbvio e o vivido para que não se repita”, afirmou.
Até o final de 2025, o governo federal planeja entregar 400 certidões de óbito retificadas, reconhecendo a verdade e a justiça histórica de cada um desses casos. Zuzu Angel e os outros homenageados nesse evento simbólico representam a luta incessante por justiça e reparação em um contexto ainda marcado pela dor e pela memória.
É indiscutível que a história de Zuzu Angel ecoa até hoje, não apenas como um testemunho do talento e da paixão por sua arte, mas também como um símbolo da resistência contra uma época sombria da história do Brasil.