Políticas do governo de Donald Trump reduziram equipes, interromperam financiamentos e ampliaram o controle político sobre pesquisas científicas nos Estados Unidos em 2026, segundo um levantamento que aponta riscos para áreas como defesa, medicina e tecnologia.
Um relatório do Pentágono informou que a rede de laboratórios de pesquisa do Departamento de Defesa perdeu cerca de 14% de sua equipe e enfrenta dificuldades para preencher posições críticas. O documento alertou para consequências potencialmente graves para o futuro da defesa nacional.
O Departamento de Energia perdeu mais de mil cientistas e técnicos, enquanto a Fundação Nacional de Ciências reteve mais de US$ 1 bilhão em financiamentos. Nos Institutos Nacionais de Saúde, autoridades atrasaram ou cancelaram mais de 2 mil bolsas para pesquisas sobre temas como Alzheimer e câncer.
As medidas foram associadas aos cortes de empregos e bolsas promovidos pelo chamado Departamento de Eficiência Governamental, liderado por Elon Musk, à pressão sobre universidades e à tentativa de ampliar o controle político sobre a distribuição de recursos para pesquisas.
O governo também propôs cortes de 41% no orçamento de pesquisa dos Institutos Nacionais de Saúde, de 55% no orçamento da Fundação Nacional de Ciências e de quase metade dos recursos destinados à ciência na Nasa. O Congresso rejeitou essas reduções.
Segundo dados reunidos para a Associação de Universidades Americanas, as inscrições de estudantes estrangeiros em programas de doutorado nas principais universidades americanas caíram 21% neste ano. A associação afirmou que a redução nas admissões ocorreu em grande parte devido às incertezas sobre o financiamento federal.
O levantamento aponta que a pressão atingiu também áreas consideradas prioritárias pelo governo, como inteligência artificial, computação quântica, energia nuclear e defesa. A China vem reduzindo a distância em relação aos Estados Unidos em pesquisa, enquanto Austrália e Canadá anunciaram programas para atrair pesquisadores que deixam o país.
A Casa Branca rejeitou a avaliação de que suas políticas estejam prejudicando a ciência. A porta-voz Liz Huston afirmou que o governo está modernizando as instituições de pesquisa, ampliando programas para jovens cientistas e direcionando recursos para missões nacionais.
O conselheiro científico da Casa Branca, Michael Kratsios, defendeu maior participação da iniciativa privada e mudanças no processo de avaliação de bolsas. Uma proposta do governo prevê que nomeados políticos aprovem pesquisadores financiados e que os beneficiários se comprometam a cumprir as políticas da administração.
Especialistas citados no levantamento afirmam que os efeitos completos dos cortes podem levar décadas para aparecer, já que pesquisas básicas financiadas pelo governo costumam resultar posteriormente em tecnologias, tratamentos médicos e produtos. A cientista Marcia McNutt disse que a ciência exige uma estratégia de longo prazo.
Fonte: O Globo