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terça-feira, 27 de outubro de 2026

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Editorial do Jornal

Este não é o Brasil

Quando a divergência política se transforma em motivo para negar trabalho, sustento ou dignidade, é a própria humanidade que começa a perder.

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Posição institucionalEste texto expressa a opinião editorial do Diário do Povo.

A divisão política não pode provocar a divisão humana
Crédito: Arte/DP

Circulam informações sobre a criação de listas com nomes de empresas cujos proprietários teriam votado no PT. O propósito seria promover uma espécie de boicote econômico a esses empreendedores. A ideia de identificar pessoas por suas convicções políticas e submetê-las a punições coletivas evoca algumas das páginas mais sombrias da história. Na Alemanha da década de 1930, o nazismo estimulou o boicote a estabelecimentos de judeus, transformados em alvos de perseguição e responsabilizados pelas dificuldades do país.

Os contextos históricos são distintos. Mas há um princípio que não muda: ninguém deveria ser privado de sua dignidade por aquilo em que acredita.

Divergências políticas deveriam encontrar seus limites no respeito ao outro. Não deveriam atravessar os portões das empresas, entrar nas casas, romper amizades ou ameaçar o pão de uma família.

No Piauí, o assunto ganhou contornos ainda mais preocupantes. Segundo informações que precisam ser esclarecidas oficialmente, o Tribunal Regional Eleitoral estaria apurando uma publicação atribuída a uma servidora da Justiça Eleitoral em Piripiri, no Norte do estado. O conteúdo compartilhado defenderia o boicote a estabelecimentos comerciais e a demissão de trabalhadores em razão de suas posições políticas.

Ao republicar a mensagem, a servidora teria acrescentado três palavras: "Não dou nem água".

Há algo de profundamente perturbador nessa expressão.

Não dar nem água é negar o mais elementar dos gestos humanos. A água que se oferece a um desconhecido, a quem bate à nossa porta, a quem tem sede. É a forma mais simples de reconhecer que, antes de qualquer diferença, existe alguém diante de nós.

A frase, se confirmada, revela até onde pode chegar a intolerância quando a identidade política se sobrepõe ao reconhecimento da humanidade do outro.

E nos obriga a fazer uma pergunta incômoda: em que momento nossas convicções políticas passaram a valer mais do que os valores humanos, cristãos e solidários que tanto proclamamos?

Talvez quando permitimos que a política ocupasse, em nossas mentes e corações, um espaço maior do que aquele reservado à própria consciência. Quando passamos a enxergar no adversário não alguém que pensa diferente, mas alguém que merece sofrer por pensar diferente.

É preciso recuperar uma verdade simples, quase esquecida: o voto é uma escolha política, não um certificado de caráter.

Em toda eleição há vencedores e derrotados. Há quem comemore e quem lamente. Há quem concorde com o resultado e quem discorde profundamente dele. É assim que funciona uma democracia. E é justamente para permitir a convivência entre essas diferenças que ela existe.

Terminada a eleição, começa outra responsabilidade.

Aos vencedores cabe governar, cumprir compromissos e responder pelos resultados. Aos derrotados cabe exercer a oposição, fiscalizar, questionar, denunciar o que estiver errado e apresentar alternativas. Ambos têm trabalho a fazer. E nenhum deles precisa transformar o cidadão comum em inimigo.

Não é tirando o pão da mesa de uma família que se muda a opinião política de alguém. Não é ameaçando empregos que se conquista uma consciência. Não é fechando as portas de um comércio que se abre espaço para o diálogo.

Ideias se enfrentam com ideias. Argumentos se respondem com argumentos. Governos se julgam por seus atos. E adversários políticos se vencem, democraticamente, nas urnas.

O Brasil precisa encontrar um caminho para sair desse abismo ideológico que vem comprometendo relações pessoais, distorcendo julgamentos e confundindo divergência com hostilidade.

Nenhum partido, nenhuma liderança e nenhuma vitória eleitoral justificam a desumanização de quem pensa diferente.

Precisamos voltar a reconhecer o vizinho antes de perguntar em quem ele votou. Respeitar o trabalhador antes de conhecer suas preferências partidárias. Entrar em uma padaria para comprar pão, não para investigar a consciência política de quem o vende.

Precisamos, sobretudo, reaprender a conviver.

A eleição passou. O Brasil continua. E continuará sendo de todos, inclusive daqueles com quem discordamos.

É hora de sacudir a poeira e seguir em frente.

Carlos Drummond de Andrade, em seu poema Hino Nacional, escreveu:

"O Brasil não nos quer! Está farto de nós!"

E, adiante, concluiu:

"Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil."

Talvez seja esse o sentimento diante de tanta intolerância. O de olhar para o país que conhecemos, para a generosidade de sua gente, para a solidariedade que tantas vezes nos define, e não reconhecer nele a crueldade que agora se manifesta.

Porque o Brasil que merece esse nome não pergunta em quem alguém votou antes de lhe oferecer um copo d'água.

Este não é o Brasil. E não podemos permitir que venha a ser.


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