Empresas de tecnologia têm recorrido a líderes religiosos, filósofos e especialistas em ética para discutir como orientar sistemas de inteligência artificial, em meio à corrida pelo desenvolvimento de modelos mais avançados. A aproximação inclui encontros com representantes do Vaticano e ocorreu ao longo de 2026.
A Anthropic, desenvolvedora do chatbot Claude, informou em maio que se reuniu com acadêmicos, clérigos, filósofos e especialistas em ética de mais de 15 grupos religiosos e interculturais. A empresa afirmou que pretende ampliar esse diálogo.
Chris Olah, cofundador da Anthropic, disse durante uma apresentação no Vaticano sobre a encíclica do papa Leão XIV dedicada à inteligência artificial que questões sobre certo e errado não podem ser respondidas apenas por um laboratório.
Executivos do setor defendem que tradições religiosas podem contribuir para a definição de princípios morais para os modelos. Sam Altman, CEO da OpenAI, afirmou no ano passado que o ChatGPT deveria refletir uma espécie de média ponderada da visão moral da humanidade.
Especialistas, porém, alertam que religiões e visões de mundo podem entrar em contradição. Para Webb Keane, antropólogo da Universidade de Michigan, a religião não se resume a regras separadas das práticas, dos rituais, da cultura e das relações entre seus seguidores.
Meghan Sullivan, filósofa da religião da Universidade de Notre Dame, participou de uma reunião da Anthropic com cristãos de diferentes denominações. Segundo ela, o encontro incluiu uma explicação sobre os modelos da empresa e debates sobre questões como a existência da alma humana e o acesso de alunos do terceiro ano a chatbots para auxiliar na alfabetização.
Representantes da Meta, do Google e da Amazon também se reuniram com representantes do Vaticano. A Microsoft, por sua vez, ampliou sua atuação junto a comunidades religiosas, segundo o conteúdo original.
Pesquisadores também questionam a ideia de que as religiões sejam sistemas claramente delimitados e facilmente comparáveis. Tomoko Masuzawa, autora de A Invenção das Religiões Mundiais, afirma que categorias como budismo e hinduísmo foram consolidadas por acadêmicos ocidentais e não eram necessariamente nativas das populações que praticavam essas tradições.
A Anthropic declarou que não pretende alinhar seus modelos à visão de uma tradição específica, mas inspirar o Claude em perspectivas religiosas, seculares e políticas. Paolo Carozza, membro do Conselho de Supervisão independente da Meta, teme que a combinação de diferentes visões apague características próprias de cada tradição e produza uma perspectiva genérica.
Fonte: g1