Empresas no Brasil passaram a oferecer telemedicina, sessões de terapia e cartões de desconto para consultas e exames como alternativas ou complementos ao plano de saúde. O movimento ganhou força em 2026, em meio à disputa por profissionais e ao aumento dos custos dos convênios.
Com o desemprego em 5,3% em agosto, menor taxa para o mês desde 2012, os benefícios de saúde se tornaram uma ferramenta de retenção. Pesquisa do instituto Ideia apontou que o plano de saúde é a segunda condição de trabalho mais valorizada, atrás apenas da estabilidade.
Para microempreendedores individuais e pequenas e médias empresas, o preço do convênio é um dos principais obstáculos. Dados compilados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) mostram reajuste médio de 12,9% nos contratos com menos de 30 usuários, acima da inflação acumulada de 4,58% em 12 meses até setembro, medida pelo IBGE.
Na rede Dr. Consulta, a procura de empresas pelo cartão que oferece descontos em consultas e exames aumentou. Segundo o CEO Massanori Shibata Jr., os principais clientes são pequenos varejistas, restaurantes e startups que não conseguem bancar um plano tradicional, mas buscam oferecer algum benefício de saúde.
Entre empresas maiores, o reajuste médio dos contratos de planos de saúde foi de 8,27% neste ano. O percentual pode variar conforme a sinistralidade, indicador que mede a parcela das mensalidades usada pelos beneficiários e influencia a correção definida pelas operadoras.
Na Motiva, antiga CCR, um programa de atenção primária criado em parceria com o Fleury gerou economia de R$ 22 milhões em dois anos, segundo a companhia. O programa atende 16 mil funcionários e 22 mil dependentes com consultas presenciais e on-line com médicos de família, ortopedistas, psiquiatras e psicólogos.
De acordo com Tania Gallegos Ranieiri, especialista em Saúde Suplementar e Auditoria em Saúde da Motiva, 80% das queixas são resolvidas no programa. Uma pesquisa independente citada pela empresa apontou que, entre 2024 e 2025, os usuários tiveram 11% menos idas a prontos-socorros e 46% menos internações do que os funcionários que não aderiram.
O Fleury oferece soluções corporativas por meio do Pra Você Card. O produto permite que empregados e dependentes tenham acesso a consultas, exames e vacinas com preços reduzidos ou custeados pelo empregador; segundo o diretor executivo comercial Alesandro Ferreira, o volume de usuários triplicou em dois anos.
A telessaúde também é contratada diretamente por empresas. A Conexa informa atender 10 mil companhias, que somam 35 milhões de usuários, com serviços médicos, psicológicos, de nutrição e fonoaudiologia. Na Starbem, são 1 milhão de usuários de 16 mil contratantes, e 90% das empresas da carteira são pequenas e médias.
O vice-presidente médico da Conexa, Gabriel Garcez, afirma que algumas empresas não conseguem oferecer convênio a todos os funcionários e recorrem à telessaúde para garantir atendimento ambulatorial. Segundo ele, dependendo do pacote, o custo pode ser de R$ 60 por pessoa, ante R$ 300 de um plano de entrada.
Para Vanessa Cepellos, professora de Gestão de Pessoas da FGV Eaesp, benefícios de menor custo podem ser uma alternativa para empresas com orçamento limitado. Ela avalia, porém, que iniciativas pontuais adotadas apenas para reduzir despesas podem ser prejudiciais no longo prazo.
Fonte: O Globo