Meredith Whittaker, presidente da Signal Foundation, rejeitou as previsões de que a inteligência artificial poderia se voltar contra a humanidade e afirmou, em entrevista ao programa BBC Global Women, que o risco mais imediato está no uso descuidado da tecnologia.
Para Whittaker, não há evidências científicas que sustentem cenários de apocalipse provocados por sistemas de IA. Ela criticou o que chamou de narrativas fantasiosas e citou, como exemplo de perigo concreto, um caso noticiado pela CNN em que um chatbot teria produzido informações falsas para serviços de inteligência dos Estados Unidos.
Segundo o relato mencionado por Whittaker, o sistema teria inventado dados sobre um navio chinês que supostamente transportava material nuclear, levando autoridades americanas a preparar uma resposta militar. A executiva afirmou que um sistema capaz de fornecer informações falsas e quase provocar um conflito com a China não deveria ser descrito como superinteligente.
Whittaker também relacionou os riscos da IA ao uso militar. Ela ganhou projeção em 2017, quando participou das críticas ao Projeto Maven, contrato do Google com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos para desenvolver sistemas capazes de identificar alvos para ataques com drones.
As críticas ajudaram a mobilizar uma paralisação de funcionários do Google em 2018. A empresa desistiu do contrato, posteriormente assumido pela Palantir.
A executiva afirmou que o Projeto Maven antecipava problemas relacionados à redução do tempo entre a identificação de um alvo por uma máquina e a decisão humana de atacá-lo. Ela também associou o projeto a um ataque americano contra uma escola em Minab, no Irã, neste ano, mas a Palantir negou que seu software tenha sido responsável pela tragédia e disse não controlar os dados usados pelo sistema.
As Forças Armadas dos Estados Unidos ainda não divulgaram os resultados da investigação sobre o ataque. O secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, afirmou que os militares não atacariam alvos civis.
Whittaker defendeu ainda a manutenção da criptografia de ponta a ponta no Signal. Ela disse que o aplicativo poderia deixar de operar em um país caso fosse obrigado a enfraquecer a proteção das mensagens ou permitir vigilância sobre usuários.
Governos, incluindo o do Reino Unido, pressionam empresas de tecnologia por maior acesso a conversas privadas sob o argumento de combater abusos contra crianças. Organizações de defesa dos direitos das mulheres, por outro lado, afirmam que o Signal pode ser uma ferramenta de proteção em situações de vigilância estatal, violência de gênero e perseguição política.
O Signal é bloqueado total ou parcialmente em países como Rússia, China e Irã. Estimativas citadas pela reportagem indicam que o aplicativo tem entre 40 milhões e 70 milhões de usuários, enquanto o WhatsApp teria cerca de 3 bilhões.
Fonte: g1