Policiais militares dispararam 69 vezes em duas ocorrências que terminaram com a morte de homens em crise de saúde mental em São Paulo, em um intervalo de sete dias. Os casos ocorreram em 3 e 10 de outubro, nas zonas Norte e Sul da capital.
Na Vila Dionísia, na Zona Norte, Antonio Nunes Batista, de 40 anos, foi baleado após cinco policiais atenderem uma ocorrência envolvendo um homem com uma faca e uma barra de ferro. Segundo o registro policial, foram feitos 24 disparos depois que tentativas de imobilização com arma de choque não surtiram efeito. A família afirma que Antonio tinha esquizofrenia.
Em Moema, na Zona Sul, Gustavo Munis de Santana, de 20 anos, morreu depois que quatro policiais dispararam 45 vezes durante o atendimento a uma ocorrência de tentativa de suicídio. De acordo com o boletim de ocorrência, os agentes disseram ter visto o jovem apontar um objeto em uma área escura; depois, constatou-se que se tratava de um celular. Gustavo fazia tratamento psiquiátrico para depressão.
A Polícia Civil investiga os dois episódios separadamente para determinar se houve legítima defesa ou excesso no uso da força. No caso de Gustavo, o boletim registra 27 perfurações, mas o laudo pericial ainda deve apontar quantos disparos atingiram o corpo, já que um único tiro pode provocar mais de uma perfuração.
Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que a quantidade de disparos deve ser considerada na análise sobre o cumprimento dos protocolos policiais. O coronel da reserva da PM José Vicente da Silva Filho avaliou que os casos indicam a necessidade de revisão dos procedimentos, enquanto Rafael Alcadipani, da Fundação Getulio Vargas e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, defendeu uma investigação detalhada.
As orientações do Método Giraldi, adotado pela Polícia Militar paulista, estabelecem que o uso da arma de fogo deve ser a última alternativa e seguir critérios de necessidade, oportunidade e proporcionalidade. Uma apostila de 2009 também orienta que, quando o disparo for necessário, sejam feitos dois tiros rápidos por vez.
Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, defendeu que a corporação avalie a participação de profissionais de saúde mental em ocorrências envolvendo pessoas em surto. O secretário da Segurança Pública de São Paulo, Osvaldo Nico Gonçalves, afirmou que considera legítima a ação dos policiais no caso de Moema, mas as investigações ainda não foram concluídas.
Fonte: g1