Documentos de inteligência enviados ao Congresso dos Estados Unidos indicam que a Arábia Saudita mantém aberta a possibilidade de produzir armas nucleares com apoio do acordo firmado com o governo de Donald Trump para ampliar sua capacidade de geração de energia nuclear civil.
Oficiais americanos ouvidos pelo The New York Times, sob condição de anonimato, afirmaram que autoridades sauditas ainda não decidiram iniciar um projeto militar. Segundo eles, a hipótese permanece em avaliação.
O acordo prevê que o reino possa enriquecer urânio a quase 20%. Embora esse nível seja inferior ao necessário para fabricar uma arma nuclear, parlamentares e especialistas alertam que a capacidade reduziria o tempo necessário para alcançar um grau de enriquecimento militar.
Senadores e deputados dos Estados Unidos demonstraram preocupação com a possibilidade de empresas americanas transferirem conhecimento e tecnologia à Arábia Saudita durante os 30 anos de vigência do acordo. Os críticos temem que o material destinado ao uso civil seja aproveitado para desenvolver um arsenal nuclear.
O Senado e a Câmara dos Representantes têm 90 dias para revisar o entendimento. Como não se trata de um tratado, o acordo não exige aprovação de dois terços do Senado, mas só poderia ser bloqueado por uma resolução conjunta aprovada pelas duas casas do Congresso.
Seis senadores democratas enviaram uma carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, citando uma declaração feita em 2018 pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman. Na ocasião, ele afirmou que a Arábia Saudita desenvolveria uma bomba atômica caso o Irã obtivesse uma.
Os parlamentares também questionaram a diferença entre o acordo negociado com Riad e o pacto nuclear firmado com o Irã em 2015, durante o governo Barack Obama. O acordo com Teerã limitava o enriquecimento de urânio a 3,67% por 15 anos.
O governo Trump apresentou o projeto, anunciado em julho, como uma medida para fortalecer a segurança dos Estados Unidos e do Oriente Médio. O Departamento de Estado afirmou que Washington não apoia nem apoiará um programa saudita de armas nucleares.
O ministro saudita de Energia, Abdulaziz bin Salman, declarou ao Washington Post que o programa terá finalidade pacífica. O texto, porém, não prevê que todas as etapas da produção nuclear saudita sejam submetidas a inspeções regulares da Agência Internacional de Energia Atômica.
A Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos não havia comentado oficialmente a avaliação mencionada nos documentos.
Fonte: O Globo