A música sertaneja se consolidou como o gênero mais ouvido do Brasil ao acompanhar mudanças sociais, urbanas e econômicas do país. Segundo levantamento da Pró-Música Brasil, a canção “Eu Te Seguro”, do cantor Panda, lidera atualmente as reproduções nas plataformas de streaming.
O sucesso contemporâneo, porém, está distante da música caipira registrada nas primeiras décadas do século 20. Em quase cem anos, o gênero incorporou elementos da guarânia paraguaia, da ranchera mexicana, da Jovem Guarda, do pop, do rock, do axé, do funk e da música eletrônica.
O marco inicial da transformação em produto de massa é associado à gravação de “Jorginho do Sertão”, composição de Cornélio Pires interpretada por Mariano e Caçula, em 1929. A moda de viola narrava o cotidiano rural e ajudou a criar um mercado profissional para artistas que passaram a atuar no rádio e na indústria fonográfica.
Na década de 1940, Tonico & Tinoco ampliaram o alcance do gênero. As canções passaram a chegar a cidades pequenas e áreas rurais pelo rádio, enquanto a vida no campo era apresentada também como lembrança e ideal de um público que havia migrado para os centros urbanos.
A partir dos anos 1960, duplas como Léo Canhoto & Robertinho aproximaram o sertanejo da Jovem Guarda, com guitarras elétricas, influências mexicanas e maior presença de temas amorosos. Nos anos 1980, a vertente romântica ganhou projeção nacional com nomes como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano, João Paulo & Daniel e, posteriormente, Rick & Renner.
Na virada do século, o chamado sertanejo universitário incorporou referências do pop internacional e passou a dialogar com o público jovem urbano. O movimento também abriu espaço para desdobramentos como o feminejo, associado à projeção de artistas como Marília Mendonça, Maiara & Maraísa, Simone & Simaria, Naiara Azevedo, Paula Mattos e Paula Fernandes.
Mais recentemente, o agronejo aproximou o gênero de símbolos do agronegócio, da ostentação e de batidas eletrônicas, além de incorporar traços do funk e do pop. Pesquisadores ouvidos na reportagem avaliam que essa fase reflete a força econômica e cultural das cidades pequenas e médias, onde o sertanejo mantém ampla circulação.
A morte de Rick, da dupla com Renner, em um acidente de helicóptero na Serra Catarinense, em 22 de setembro de 2026, também marcou o período em que a reportagem foi publicada. O cantor estava entre os cinco ocupantes da aeronave, e as causas da queda são investigadas pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos.
Apesar das mudanças, permanecem características tradicionais, como o canto em terças, a formação em dupla e as letras narrativas. Para os pesquisadores, a capacidade de absorver outros estilos e retratar diferentes momentos do país explica a permanência do sertanejo no centro do mercado musical brasileiro.
Fonte: G1