A música sertaneja voltou ao topo do streaming brasileiro no primeiro semestre de 2026, segundo levantamento da Pró-Música Brasil. A faixa “Eu Te Seguro (Ao Vivo)”, interpretada por Panda, nome artístico de Jonathan Scarello dos Anjos, liderou o ranking nacional de reproduções em plataformas digitais.
O resultado mostra a força de um gênero que se transformou ao longo de quase cem anos. O sertanejo atual reúne referências rurais, pop, funk, música eletrônica e narrativas sobre relacionamentos, festas, consumo e ostentação.
A origem do segmento como produto fonográfico costuma ser associada à gravação de “Jorginho do Sertão”, em 1929, na voz da dupla Mariano e Caçula. A iniciativa foi viabilizada pelo jornalista e folclorista Cornélio Pires, que financiou a gravação e a prensagem dos discos depois de não encontrar uma gravadora disposta a investir na música caipira.
Na primeira fase, entre o fim dos anos 1920 e a década de 1940, as canções registravam cenas do trabalho agrícola, causos e costumes do interior. A expansão do rádio ajudou a levar essas músicas às cidades e a aproximá-las de trabalhadores que haviam deixado o campo.
Nas décadas seguintes, duplas como Tonico & Tinoco ampliaram o alcance do gênero. A vida rural passou a ser apresentada também como memória e idealização, em sintonia com o êxodo rural e com o crescimento do público urbano.
A partir dos anos 1960, a música sertaneja incorporou elementos da Jovem Guarda, guitarras elétricas e influências mexicanas. O repertório passou a tratar com mais frequência de relações amorosas e do cotidiano urbano.
Nos anos 1980, a indústria fonográfica impulsionou o chamado sertanejo romântico, associado a artistas como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano, João Paulo & Daniel e, posteriormente, Rick & Renner. A vertente ampliou a presença do gênero na televisão e nas principais emissoras de rádio.
Na virada do século, o sertanejo universitário aproximou o gênero do pop, do rock, do axé e de outras tendências populares. O movimento também consolidou a carreira solo de vários artistas e passou a dialogar com um público jovem, urbano e conectado às plataformas digitais.
Entre os desdobramentos recentes estão o feminejo, marcado pela projeção de cantoras como Marília Mendonça, Maiara & Maraísa e Simone Mendes, e o agronejo, vertente que associa a música sertaneja à representação do agronegócio e incorpora batidas eletrônicas, pop e funk.
Para pesquisadores ouvidos na reportagem, a capacidade de absorver diferentes estilos ajuda a explicar a permanência do sertanejo no mercado. O gênero deixou de retratar apenas o campo tradicional e passou a acompanhar mudanças sociais, econômicas e culturais do Brasil.
O ranking que colocou Panda no primeiro lugar reúne reproduções de plataformas como Spotify, YouTube, Deezer, Apple Music, Amazon Music e Napster. A liderança representa o retorno do sertanejo ao topo das listas nacionais após períodos de predominância de outros gêneros, como o pagode.
Fonte: g1