A eleição para o governo de Minas Gerais em 2026 coloca em disputa diferentes formas de usar a imagem de alguém que vem de fora da política. Flávio Roscoe, Cleitinho Azevedo e Romeu Zema representam momentos distintos dessa estratégia eleitoral.
Roscoe é o nome que mais se aproxima do perfil clássico de outsider entre os candidatos analisados. Sua trajetória foi construída principalmente no setor empresarial e à frente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), antes da entrada direta na disputa eleitoral.
A atuação empresarial, no entanto, não significa ausência de relação com a política. A interlocução com governos, a representação de interesses e a participação no debate público fazem parte desse percurso, embora sejam diferentes de uma carreira formada por mandatos eletivos.
Cleitinho Azevedo, do Republicanos, já passou pela Câmara Municipal de Divinópolis, pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais e pelo Senado. Mesmo com essa trajetória institucional, sua comunicação continua associada à crítica aos privilégios, à linguagem direta e à ideia de distanciamento em relação à política tradicional.
Essa diferença separa o outsider de quem apenas adota um discurso antissistema. A condição de alguém que está fora da política pode desaparecer à medida que se acumulam mandatos, alianças e experiências dentro das instituições. Já a linguagem de oposição ao sistema pode continuar sendo usada por políticos profissionais.
Romeu Zema representa outro estágio. Empresário sem experiência eleitoral, ele construiu em 2018 uma campanha baseada na promessa de romper com a chamada velha política e venceu a disputa pelo governo de Minas. Depois de dois mandatos à frente do estado, sua trajetória passou a incluir decisões administrativas, negociações, crises, resultados e cobranças próprias de quem exerceu o poder.
A análise aponta que a imagem de gestor e empresário pode permanecer, mas deixa de existir sozinha. Após a chegada ao governo, o candidato precisa explicar o que fez e demonstrar em que medida sua atuação foi diferente da política que criticava.
Roscoe, Cleitinho e Zema ilustram, assim, três caminhos: a tentativa de transformar uma trajetória externa às urnas em novidade, a manutenção de uma linguagem antissistema por quem já acumula mandatos e a adaptação de um antigo outsider à condição de liderança política consolidada.
Para a disputa mineira de 2026, a questão não se limita a saber quem veio de fora da política. Também envolve identificar quem ainda consegue convencer o eleitor de que continua diferente depois de entrar nas instituições.
Fonte: O Globo