A ausência de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro debate presidencial de 2026, promovido pela Band neste domingo (23), parte de um cálculo destinado a reduzir riscos, mas também pode produzir efeitos negativos para as duas campanhas. Líderes das pesquisas, os dois evitam virar alvo dos adversários, mas entregam aos concorrentes horas de exposição, deixam acusações sem resposta imediata e abrem espaço para que a própria ausência seja transformada em argumento eleitoral. O risco ganha relevância porque Lula e Flávio estão separados por poucos pontos e carregam índices elevados de rejeição.
Ficar fora do debate reduz o risco imediato, mas entrega o palco aos adversários
O raciocínio das duas campanhas é relativamente simples.
Lula lidera a corrida presidencial e seria o único candidato de esquerda em um palco originalmente planejado para reunir seis presidenciáveis. A campanha petista argumentou que o presidente enfrentaria condições desequilibradas ao ser colocado diante de cinco adversários, incluindo candidatos que, pelas regras legais, não precisariam obrigatoriamente receber convite.
Flávio Bolsonaro chegou a uma conclusão semelhante por outro caminho. Sem Lula, o senador passaria a ser o candidato mais bem colocado presente no estúdio e, consequentemente, o alvo preferencial dos concorrentes. Sua campanha vem sinalizando que não pretende participar de debates sem a presença do presidente.
Há lógica eleitoral nas duas decisões. Um debate ao vivo impõe risco de erro, resposta mal formulada, confronto desvantajoso e produção de vídeos negativos que podem circular durante dias nas redes sociais.
Só que proteção também tem preço.
Quem não entra no estúdio perde o controle sobre aquilo que será dito a seu respeito. E, neste domingo, os adversários não precisarão dividir esse espaço com uma resposta de Lula ou Flávio.
Lula e Flávio chegam ao primeiro debate separados por uma distância que não permite desprezar movimentos da campanha
O Datafolha divulgado na sexta-feira (21) colocou Lula com 39% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro com 33% no primeiro turno. Ronaldo Caiado (PSD) aparece com 5%, Renan Santos (Missão), com 4%, e Romeu Zema (Novo), com 3%. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
No segundo turno, Lula marca 47% e Flávio, 43%.
Outro número ajuda a entender por que evitar exposição não é necessariamente uma decisão sem custos: 45% dos entrevistados dizem que não votariam em Lula de jeito nenhum, enquanto a rejeição a Flávio chega a 46%.
Os dois têm bases eleitorais grandes e relativamente consolidadas. Ao mesmo tempo, precisam conquistar eleitores além delas.
É justamente nesse território — formado por eleitores menos identificados, votos ainda transferíveis e parcelas do público que acompanham a campanha com menor intensidade — que uma ausência pode produzir desconforto.
Pesquisas acadêmicas não sustentam a ideia de que um único debate costuma virar automaticamente uma eleição. Um estudo com 62 eleições em dez países encontrou forte movimentação de voto ao longo das campanhas, mas não identificou efeito isolado dos debates televisivos sobre a formação da escolha.
O caso brasileiro, porém, oferece uma nuance importante. Pesquisa publicada na Public Opinion Quarterly, baseada nas eleições de 2014, encontrou efeito significativo dos debates do primeiro turno sobre a propensão dos eleitores brasileiros a mudar de candidato.
Não existe, assim, uma regra segundo a qual faltar custará votos. Existe risco.
E o risco cresce quando a disputa é apertada.
Para Lula, a ausência permite aos adversários atacar o governo sem uma resposta ao vivo
A condição de presidente cria um problema particular para Lula.
Ele não entra no debate apenas como candidato. Entra — mesmo ausente — como responsável pelo governo federal. Economia, segurança, corrupção, gastos públicos, programas sociais e decisões tomadas durante seu mandato podem aparecer repetidamente no confronto.
Sem Lula no estúdio, os adversários ganham liberdade para apresentar suas próprias interpretações sobre esses temas.
Ronaldo Caiado já sinalizou que pretende explorar as ausências. O candidato do PSD tem chamado os principais concorrentes de “fujões” e afirma que eles evitam os encontros por terem questões a esconder.
A força dessa acusação dependerá do desempenho de quem estiver no palco e da repercussão posterior.
Mas há uma vulnerabilidade evidente para o presidente: a versão sobre seu governo poderá ser construída durante o debate sem que ele tenha os minutos seguintes para contestá-la.
Na comunicação política, isso importa porque o debate não termina quando a transmissão acaba.
Frases ditas no estúdio serão recortadas, legendadas, impulsionadas e redistribuídas em Instagram, TikTok, YouTube, X e grupos de mensagens. Lula pode responder depois por meio de entrevistas, vídeos ou propaganda eleitoral, mas estará reagindo a uma agenda que outros ajudaram a produzir.
A cadeira vazia pode reforçar uma narrativa de que o presidente evita prestar contas
Há ainda um efeito simbólico.
A Band informou que manterá no cenário os púlpitos destinados aos candidatos convidados mesmo em caso de ausência. Com isso, Lula e Flávio não desaparecem completamente da transmissão: a ausência pode se tornar parte visual do próprio debate.
É uma imagem eleitoral simples e facilmente explorável.
Um adversário não precisa desenvolver uma tese complexa para atacar quem faltou. Basta apontar para o espaço vazio e perguntar por que o candidato não está ali.
Para Lula, esse enquadramento pode ser especialmente inconveniente quando combinado à condição de presidente da República. Os rivais podem apresentar o debate não apenas como uma disputa entre candidatos, mas como uma oportunidade de cobrar explicações de quem governa.
Até Tarcísio de Freitas (Republicanos), aliado de Flávio Bolsonaro, afirmou que gostaria de ver os dois líderes participando. Segundo o governador paulista, o eleitor demanda conhecer a direção e os planos dos candidatos para o país.
A crítica mostra que o desconforto com as ausências não está restrito aos adversários ideológicos de Lula.
Para Flávio Bolsonaro, o maior risco está na disputa pelos próprios eleitores da direita
A ausência de Flávio envolve um problema diferente.
O senador ocupa com folga a segunda colocação e consolidou-se, até aqui, como o principal adversário de Lula. Mas ainda não reúne automaticamente todos os eleitores dos demais candidatos de direita.
O Datafolha mostra que, em uma eventual disputa de segundo turno contra Lula, Flávio recebe 60% dos eleitores de Romeu Zema, 54% dos que hoje votam em Ronaldo Caiado e apenas 48% dos eleitores de Renan Santos. O restante se divide entre Lula, branco e nulo.
Esse dado torna a estratégia de ausência mais complexa.
Evitar o debate impede Flávio de entrar em confronto com candidatos cujos votos poderá precisar no segundo turno. Essa é uma vantagem: ataques muito fortes poderiam dificultar futuras alianças.
Ao mesmo tempo, ele perde uma oportunidade de falar diretamente com esse eleitorado.
Para alguém que precisa construir uma frente ampla de direita contra Lula, assistir de fora enquanto Caiado e Renan ocupam o palco significa permitir que esses concorrentes apresentem seus argumentos sem que Flávio possa demonstrar, no mesmo ambiente, por que deveria ser considerado a liderança desse campo.
O senador preserva a relação com os rivais. Mas também lhes entrega espaço.
Condicionar presença a Lula pode fazer Flávio parecer dependente da estratégia do adversário
Outro possível desgaste está na justificativa escolhida.
A campanha de Flávio tem adotado o entendimento de que não faz sentido participar sem Lula, visto como seu verdadeiro adversário na eleição. A avaliação interna é que comparecer faria do senador o principal alvo e daria aos candidatos menores um grau de protagonismo que eles ainda não possuem nas pesquisas.
A estratégia protege Flávio.
Também oferece munição aos concorrentes.
Caiado e Renan podem argumentar que um candidato à Presidência não deveria escolher seus debates com base na agenda de outro candidato. A narrativa seria especialmente útil para quem pretende disputar o eleitor antipetista: se Flávio quer liderar a oposição a Lula, seus adversários podem questionar por que sua presença depende justamente de Lula.
Não significa que o argumento convencerá o eleitor bolsonarista mais fiel.
O problema está fora desse núcleo.
A campanha de Flávio precisa alcançar conservadores, liberais e eleitores de direita que hoje preferem Caiado, Renan ou outras alternativas. É nesse universo que uma boa participação no primeiro debate poderia funcionar como demonstração de preparo, autonomia e capacidade de enfrentar pressão.
Caiado, Renan e Cury ganham algo que Lula e Flávio recusaram: tempo de exposição
O esvaziamento aumentou neste domingo depois que Romeu Zema também anunciou que não participará. Com isso, a expectativa é que o debate tenha apenas Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury (Avante).
Isso reduz o peso do evento sob um aspecto: os dois candidatos que concentram 72% das intenções de voto no Datafolha não estarão lá.
Sob outro, aumenta o espaço disponível para quem comparecer.
Com menos candidatos, Caiado, Renan e Cury terão mais visibilidade relativa. Poderão apresentar propostas, construir diferenças e, sobretudo, mencionar Lula e Flávio sem enfrentar uma réplica direta dos líderes.
Renan tem um incentivo particularmente forte. Sua campanha depende muito das plataformas digitais e enxerga o evento da Band como uma oportunidade de chegar a públicos que não acompanham seu ecossistema nas redes.
Caiado também pretende aproveitar o palco para se diferenciar tanto de Lula quanto de Flávio.
Se algum deles produzir uma atuação de forte repercussão, o problema para os ausentes não será necessariamente uma migração imediata e maciça de votos.
Pode ser algo mais gradual: o surgimento de um terceiro candidato capaz de disputar atenção, pautar a campanha e reduzir a sensação de que a eleição já está limitada a dois nomes.
A história mostra que faltar a debate não condena uma candidatura, mas o contexto de cada eleição faz diferença
Ausências de candidatos competitivos não são novidade nas eleições brasileiras.
Em 1989, Fernando Collor evitou os debates do primeiro turno e só participou dos confrontos na etapa final contra Lula. Em 1998, Fernando Henrique Cardoso não compareceu aos debates televisivos e venceu a eleição no primeiro turno. Lula, por sua vez, deixou de participar de debates durante o primeiro turno de 2006, quando buscava a reeleição.
Esses precedentes desmontam qualquer interpretação automática de que faltar significa perder.
Mas também mostram que a decisão costuma ser tomada justamente por candidatos que consideram a exposição mais perigosa do que a ausência.
O cálculo de 2026 segue essa lógica.
Lula tenta proteger a liderança. Flávio evita entrar sozinho no centro da artilharia. Nenhum dos dois quer fornecer aos adversários um erro, uma frase infeliz ou uma imagem capaz de dominar o noticiário durante vários dias.
A diferença é que a política digital mudou a duração de um debate.
Um confronto que ocorre durante algumas horas na televisão pode produzir centenas de vídeos e milhões de visualizações durante a semana seguinte. Essa lógica explica o medo das campanhas — mas também amplia o benefício para quem comparece e consegue produzir um momento favorável.
O tamanho do prejuízo será medido depois do debate, e não durante a transmissão
Para Lula e Flávio Bolsonaro, a grande pergunta não será quem venceu o debate da Band.
Será quem conseguiu ocupar o espaço deixado por eles.
Se o encontro tiver baixa repercussão, não produzir momentos fortes e permanecer restrito ao público já interessado nos candidatos presentes, a estratégia defensiva dos líderes poderá parecer acertada. Eles terão evitado riscos sem pagar um preço eleitoral relevante.
O cenário muda se Caiado ou Renan conseguirem transformar a noite em plataforma de crescimento.
Lula poderia sentir o efeito entre eleitores que rejeitam seu governo, mas ainda não decidiram quem apoiar. Flávio enfrenta uma vulnerabilidade ainda mais específica: precisa convencer eleitores de outras candidaturas de direita de que é capaz de unificar esse campo contra o PT, e hoje essa transferência está longe de ser automática.
Há ainda três debates presidenciais previstos antes do primeiro turno, em 4 de outubro: encontros programados para 14 e 28 de setembro e 1º de outubro. Lula e Flávio terão novas oportunidades de rever a estratégia.
O primeiro confronto, contudo, deixa uma contradição que acompanhará as duas campanhas.
Ao tentar impedir que os adversários os ataquem diante das câmeras, Lula e Flávio Bolsonaro garantem justamente aos adversários um palco em que poderão atacá-los sem resposta.
O custo dessa escolha talvez não apareça imediatamente nas pesquisas. Pode surgir primeiro na narrativa da campanha, nos cortes que circulam pelas redes e na percepção de eleitores que ainda esperam ver os principais candidatos submetidos ao confronto direto.
Para os dois favoritos, faltar reduz um risco conhecido.
Resta saber se não cria outro maior.