Um esporte inspirado na Idade Média, as Artes Marciais Históricas Europeias (Hema), está conquistando adeptos na América do Sul, especialmente no Brasil e na Argentina. A prática resgata sistemas de combate europeus documentados entre os séculos XII e XX, utilizando equipamentos de proteção modernos e simuladores de armas.
Diferente de outras artes marciais, a Hema é um sistema reconstruído a partir de tratados históricos. Praticantes interpretam manuais de mestres de armas para aplicar técnicas de combate com espadas, sabres e outras armas.
Em novembro, São Paulo sediou o Torneio Nacional de Esgrima Histórica, com modalidades como Espada Longa e Sabre Militar. No Rio de Janeiro, aulas abertas são realizadas em locais como a Enseada de Botafogo.
A Hema combina pesquisa histórica com atividade física. Uma publicação da Escola de Esgrima medieval do Rio de Janeiro descreve a prática como "Um vicio para quem gosta de história, medievalismo e espadas!".
Manuais de mestres como Fiore dei Liberi e Johannes Liechtenauer são a base da Hema. Johannes Liechtenauer, do século XIV, compilou seu sistema em um poema enigmático para preservar o conhecimento.
Marcos Rodríguez Peluso, instrutor argentino, explica que a esgrima na Europa era integrada à sociedade. "São essas fontes que nossa disciplina estuda, traduz e recria em um ambiente moderno e seguro", afirma.
O ressurgimento global da Hema ocorreu nos anos 2000 com a internet. Plataformas como a Wiktenauer compartilham manuais digitalizados, facilitando a prática por entusiastas em todo o mundo.
A espada longa é a arma mais popular na Hema, utilizada em combates dos séculos XIV a XVI. Espadas de treino pesam entre 1,3 e 1,8 quilos e usam versões sem fio para segurança.
O repertório inclui também sabres, espadas de esgrima e a combinação de espada e broquel (escudo).
Na Argentina e no Brasil, a Hema se consolidou no final da década de 2010. A Associação Brasileira de Esgrima Histórica (Abeh) promove torneios desde 2023.
O treinamento envolve aquecimento físico, interpretação de fontes históricas e prática de técnicas. O combate controlado, ou sparring, valida a eficácia das manobras.
"Se o oponente precisa ‘ajudar’ para que uma técnica funcione, a interpretação está incorreta e deve ser revisada", ressalta Peluso.
O uso de máscaras reforçadas, jaquetas acolchoadas e luvas garante a segurança durante o combate.
Além dos benefícios físicos, como coordenação e reflexos, a Hema desenvolve o pensamento estratégico e a capacidade de análise sob pressão. O maior valor, no entanto, é o senso de pertencimento e camaradagem entre os praticantes.
Não é necessária experiência prévia e os equipamentos podem ser adquiridos gradualmente.
"O maior benefício é no nível humano", conclui o instrutor, destacando a cumplicidade que se estende para além dos treinos.
Fonte: O Globo