A inteligência artificial (IA) está reconfigurando o mercado de trabalho brasileiro, com um impacto desproporcional sobre jovens e mulheres. Estima-se que 30 milhões de trabalhadores estejam em ocupações com algum grau de exposição à IA, com 5 milhões em funções de alto risco de automação. Setores como serviços financeiros e de informação e comunicação lideram a lista de mais afetados.
A pesquisa do FGV-Ibre, baseada em dados da PNAD Contínua (IBGE) e índices da Organização Internacional do Trabalho (OIT), revela que 35,4% das mulheres e 35,9% dos jovens (14 a 29 anos) estão em ocupações impactadas pela IA, percentuais superiores aos dos homens (25%) e trabalhadores mais velhos (25,7%).
Especialistas apontam que a concentração de mulheres em setores de serviços e comércio, e de jovens em funções mais repetitivas, explica essa vulnerabilidade. A IA avança sobre tarefas intelectuais, exigindo senso crítico e habilidades de adaptação, competências que, segundo a cientista Nina da Hora, não estão amplamente disseminadas na base educacional brasileira.
A adaptação à IA não significa necessariamente perda de emprego, mas sim uma reorganização das tarefas e um potencial aumento da produtividade. Contudo, trabalhadores com maior escolaridade e remuneração tendem a se adaptar melhor, o que pode acentuar a desigualdade.
A professora Tania Casado, da FEA/USP, destaca que a IA, por ser abrangente, rápida e atuar em tarefas cognitivas, exige uma adaptação constante. A falta de regras claras e a natureza não linear das carreiras agravam o cenário.
Para Anderson Soares, vice-presidente do grupo AI Brasil, a capacidade de lidar com IA será uma habilidade digital essencial, assim como o uso de outras ferramentas digitais. No entanto, Nina da Hora defende que o julgamento crítico sobre a tecnologia é a habilidade mais escassa, exigindo uma educação humanística e não apenas cursos rápidos.
A cientista propõe fortalecer a educação básica, integrar a IA ao ensino profissionalizante, criar programas de requalificação e alinhar a política industrial à cadeia internacional de IA. A posição do Brasil na divisão internacional do trabalho, sem avanço na produção tecnológica, o condena a ser consumidor e fornecedor de dados.
Soares conclui que a IA é a onda tecnológica mais transformadora, com a velocidade de sua evolução como principal incógnita.
Fonte: G1