O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, enfrenta forte pressão política do PT e do entorno do presidente Lula. A tensão aumentou após Galípolo afirmar em depoimento à CPI que investigações internas não encontraram "culpa" de seu antecessor, Roberto Campos Neto, no caso do Banco Master. A declaração contraria a estratégia do Palácio do Planalto de responsabilizar a gestão de Jair Bolsonaro, que indicou Campos Neto, pelo escândalo.
A seis meses das eleições presidenciais, as críticas a Galípolo escalaram. O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), classificou o presidente do BC como "traidor". A relação entre Galípolo e o governo já estava desgastada desde o fim do ano passado, com o descontentamento sobre a taxa Selic, e se agravou com a indicação de Fernando Haddad para uma diretoria no BC.
Em depoimento à CPI do Crime Organizado, Galípolo declarou que "não há, em nenhum processo de auditoria ou de sindicância, nada que encontre qualquer culpa por parte do ex-presidente Roberto Campos (Neto)". Integrantes do governo esperavam que Galípolo usasse sua fala na CPI para apontar responsabilidades de Campos Neto no caso Master, mas a resposta objetiva de Galípolo dificultou a estratégia política do Planalto.
A linha de argumentação do governo para se afastar do escândalo do Master foca na autorização do BC, em 2019, para Vorcaro assumir o controle da instituição, então chamada Banco Máxima. A operação havia sido negada meses antes, ainda na gestão de Ilan Goldfajn. Aliados do governo apontam falta de habilidade política de Galípolo ao não explorar a "linha do tempo" do crescimento do Master durante a gestão Campos Neto e o governo Bolsonaro.
Oficialmente, o governo manterá o discurso de que Galípolo cumpre seu papel institucional. No entanto, a postura técnica do presidente do BC visa não ferir a autonomia ou a credibilidade do órgão. Uczai reiterou que a postura de Galípolo na CPI foi a "gota d'água" e que o presidente do BC "omitou" ao dizer que Campos Neto não tem responsabilidade no caso Master, caracterizando-o como "traidor" de uma "nova política" econômica.