A instabilidade gerada pela guerra entre Irã e Estados Unidos pode ter um impacto menor na moeda brasileira. Economistas do Itaú Unibanco avaliam que os juros altos no Brasil podem atuar como um escudo para o real, mesmo diante da aversão global ao risco. Tradicionalmente, conflitos internacionais levam investidores a buscar a segurança do dólar, mas o diferencial de juros brasileiro tende a atrair capital estrangeiro e sustentar o real.
Pedro Schneider, economista do Itaú, explica que a menor dependência do Brasil de petróleo importado também é um fator crucial. "O Brasil tem uma gordurinha", afirma, ressaltando que o país sofre menos as consequências cambiais em comparação com outras nações. A combinação de termos de troca favoráveis e juros altos ajuda a mitigar a desvalorização do real.
O impacto inflacionário da guerra ainda é incerto, mas o Itaú estima que um aumento de 10% no preço do diesel poderia elevar o IPCA em 0,2 ponto percentual. O conflito, que levou ao fechamento do Estreito de Ormuz, rota vital para o transporte de petróleo, afeta os preços de combustíveis e pode, indiretamente, encarecer o frete e outros produtos.
A economista Julia Gottlieb alerta para a possibilidade de pressão sobre os preços de fertilizantes, caso o conflito se prolongue. "Quanto maior o preço do fertilizante, maior o preço da soja e do trigo", pontua, embora preveja que esse efeito seja mais sentido a partir de 2026.
Schneider indica que o fechamento do Estreito de Ormuz pode persistir até meados de abril. Ele acredita que uma solução para a guerra não é esperada no curto prazo, mas descarta que o conflito dure o ano todo devido à importância estratégica da região.
Em cenários de guerra prolongada, a experiência mostra que bancos centrais tendem a aumentar juros. Nos EUA, a persistência da inflação eleva a chance de o Federal Reserve (Fed) manter os juros altos, o que, segundo Schneider, aumenta a probabilidade de não haver cortes de juros americanos este ano.
O economista também menciona o avanço da inteligência artificial como um fator de produtividade, mas que pode reconfigurar o mercado de trabalho, com potenciais impactos no desemprego, especialmente entre jovens e recém-formados. "Isso causa um problema para a sociedade como um todo", conclui.